Volume 01 – CapÃtulo 02: Situação
Bang!
Zhou Mingrui se assustou e recuou alguns passos diante do espelho. Parecia que o reflexo não mostrava ele mesmo, mas algum tipo de zumbi.
Como alguém pode continuar vivo com um ferimento desses?!
Ele simplesmente não conseguia acreditar. Inclinou a cabeça para observar melhor o outro lado. Mesmo à distância e sob a fraca luz da lua, conseguiu ver um ferimento profundo com sangue escorrendo.
— Isso...
Zhou Mingrui tentou se acalmar e respirou fundo.
Colocou a mão sobre o peito e sentiu as batidas do próprio coração fortes, rápidas e cheias de vida.
Tocou a pele e sentiu o calor vivo sob a superfÃcie fria.
Ele se agachou por um momento, certificando-se de que seus joelhos não cederiam. Quando percebeu que conseguia se sustentar, levantou-se novamente, um pouco mais tranquilo.
— O que está acontecendo...? — murmurou, franzindo a testa enquanto se preparava para examinar novamente o ferimento na cabeça.
Depois de dar alguns passos, parou de repente.
A luz da lua que entrava pela janela não era forte o suficiente para uma inspeção cuidadosa.
Um fragmento de memória surgiu em sua mente.
Zhou Mingrui olhou para o tubo cinza na parede perto da mesa e para a lâmpada com refletor metálico.
Era uma lâmpada a gás. Funcionava conectada à tubulação e fornecia uma chama estável, além de uma iluminação excelente.
A famÃlia de Klein Moretti sequer podia se dar ao luxo de comprar uma lamparina a querosene, quanto mais uma lâmpada a gás. Velas representavam com precisão sua condição financeira e posição social.
Quatro anos atrás, Klein precisou estudar até tarde para se preparar para o exame de admissão à universidade. Quando ele apertava os olhos tentando continuar estudando sob a fraca luz das velas, seu irmão mais velho, Benson, declarou que aquilo era uma questão importante para o futuro da famÃlia.
Mesmo que fosse necessário contrair dÃvidas, ele garantiria boas condições de estudo para Klein.
Felizmente, Benson já trabalhava há alguns anos como funcionário qualificado e não era impulsivo nem descuidado. Usando o argumento de que instalar uma linha de gás melhoraria as condições da casa e atrairia novos inquilinos, ele conseguiu convencer o proprietário a pagar pela instalação.
Aproveitando seus contatos em outras companhias comerciais, Benson ainda conseguiu comprar uma lâmpada a gás quase pelo preço de custo. No final, ele precisou gastar apenas metade de suas economias e nem precisou pedir dinheiro emprestado.
As lembranças emergiram.
Zhou Mingrui voltou à realidade diante da mesa.
Ele abriu a válvula e girou o regulador de gás.
Um clique de ignição soou.
Mas a luz não acendeu.
— Tsk!
Zhou Mingrui girou a alavanca algumas vezes, mas a lâmpada permaneceu silenciosa.
— Ah...
Ele afastou a mão da têmpora e começou a vasculhar as memórias de outra pessoa.
Alguns segundos depois, virou-se e caminhou até a porta.
Ali, diante do mecanismo conectado aos tubos branco-acinzentados, ele parou.
Aquilo era um medidor de gás.
Observando as engrenagens e rolamentos quase novos, o jovem tirou uma moeda do bolso.
A moeda era de um amarelo escuro, semelhante ao bronze. No anverso havia a imagem de um homem coroado cercado por espigas de trigo e o número 1.
Zhou Mingrui sabia que aquela era a unidade monetária mais comum do Reino de Loen: o penny de cobre.
Seu poder de compra equivalia aproximadamente a três ou quatro dólares na Terra.
Outras denominações incluÃam moedas de cinco pence, meio penny e um quarto de penny mas elas não eram suficientes para cobrir todas as necessidades do cotidiano.
Girando o penny entre os dedos uma moeda que começou a circular quando o rei George III subiu ao trono Zhou Mingrui a jogou na fenda do medidor de gás.
Clang! Clang!
Assim que a moeda caiu no fundo do aparelho, engrenagens começaram a girar. Uma pequena e curiosa melodia mecânica soou.
Zhou Mingrui observou o medidor por alguns segundos e então voltou à mesa.
Estendeu a mão para o regulador.
Click! Click! Click!
Uma chama se acendeu.
Primeiro, a luz ocupou o interior da lâmpada a gás. Em seguida, atravessou o vidro transparente e iluminou todo o quarto.
A escuridão recuou de repente, e a névoa sanguinolenta do lado de fora da janela pareceu desaparecer.
Zhou Mingrui recuperou um pouco mais a compostura e caminhou rapidamente até o espelho.
Dessa vez, examinou cuidadosamente a própria têmpora.
Ele percebeu algo estranho.
Embora ainda houvesse manchas de sangue, o ferimento não sangrava mais.
Era como se alguém tivesse aplicado um poderoso hemostático e feito um curativo.
O tecido cinzento do cérebro, que se movia levemente, estava se regenerando diante de seus olhos.
Naquela velocidade, em trinta ou quarenta minutos no máximo duas ou três horas restariam apenas cicatrizes.
— Efeito da transmigração...? — murmurou Zhou Mingrui, levantando levemente o canto da boca.
Ele soltou um longo suspiro.
Não importava o motivo.
Ele iria viver.
Depois de se acalmar, abriu a gaveta e pegou um pequeno pedaço de sabão. Em seguida, pegou uma toalha velha pendurada no lado da cômoda.
Abriu a porta e seguiu para o banheiro coletivo no segundo andar.
Preciso limpar o sangue da cabeça. Estou parecendo vÃtima de um assalto.
Se não me assusta, pode assustar minha irmã Melissa quando ela acordar.
Seria desagradável.
O corredor estava escuro.
Apenas a luz da lua entrava pela janela no fim do corredor, iluminando vagamente os contornos dos objetos, que pareciam olhos de monstros observando silenciosamente as pessoas.
Zhou Mingrui sentiu um leve arrepio enquanto caminhava até o banheiro.
Dentro, havia um pouco mais de luz.
Ele parou diante da pia e abriu a torneira.
O som da água correndo fez com que ele lembrasse do senhorio: Frank, um homem baixo e magro que usava cartola, colete e casaco preto.
Ele costumava ficar parado perto da porta do banheiro escutando para verificar se alguém estava desperdiçando água.
Se alguém abrisse a torneira demais, o Sr. Frank esquecia completamente as boas maneiras.
Batendo na porta com sua bengala, ele gritava:
Afastando esses pensamentos inúteis, Zhou Mingrui molhou a toalha e começou a limpar repetidamente a têmpora.
Depois de conferir seu reflexo no espelho rachado e confirmar que restavam apenas marcas do ferimento, ele relaxou um pouco.
Tirou a camisa e pegou o sabão para remover as manchas de sangue.
Então franziu a testa.
Lembrou-se de outro problema.
O ferimento era grave e havia sangrado bastante.
Isso significava que também deveria haver sangue no quarto.
Em poucos minutos ele limpou a camisa, pegou a toalha molhada e voltou.
Primeiro limpou a marca ensanguentada na mesa.
Depois, usando a luz da lâmpada, examinou o quarto.
Havia várias gotas de sangue no chão e respingos perto da base da mesa.
E, perto da parede esquerda…
…havia uma cápsula de bala de latão.
— ...encostar um revólver na têmpora e puxar o gatilho?
Conectando as pistas assustadoras, Zhou Mingrui finalmente entendeu o que havia acontecido com Klein Moretti.
Mas ele não verificou sua hipótese imediatamente.
Primeiro limpou cuidadosamente todo o sangue.
Depois pegou a cápsula e voltou à mesa.
Abriu o tambor do revólver e retirou as balas.
Hm... apenas cinco cartuchos… e cápsulas de latão.
— Parece que é isso mesmo... — murmurou.
Considerando também a câmara vazia, Zhou Mingrui assentiu lentamente e girou o tambor antes de recolocar as balas.
Seu olhar então se voltou para a esquerda.
Ali estava a frase escrita no caderno:
“Todos morrerão, inclusive eu.”
Dúvidas começaram a surgir em sua mente.
De onde veio esse revólver?
Foi suicÃdio... ou assassinato disfarçado?
Como um simples recém-formado do Departamento de História se envolveu nisso?
E por que restaram apenas hematomas no corpo?
Será porque eu transmigrei de outro mundo e curei o corpo?
Enquanto refletia, Zhou Mingrui vestiu outra camisa, sentou-se na cadeira e começou a pensar em algo ainda mais importante.
Não era a memória de Klein que o preocupava.
Ele pensava em como havia vindo parar naquele mundo e se era possÃvel voltar.
A fascinante internet.
A comida à qual estava acostumado.
Essas eram as razões pelas quais queria retornar à Terra.
Sem perceber, Zhou Mingrui abriu novamente o tambor do revólver e começou a girá-lo distraidamente.
Não aconteceu nada estranho…
Eu apenas tive um pouco de azar.
Então por que fui parar em outro mundo?
Azar…
De repente, seus olhos se arregalaram.
Isso mesmo… antes do jantar eu fiz um ritual para mudar minha sorte!
Um relâmpago pareceu atravessar sua mente, iluminando uma memória que antes estava escondida na névoa.
Como um “especialista de sofá” em polÃtica, história, economia, biologia e folclore, ele costumava dizer que sabia um pouco de tudo.
Seus amigos sempre riam e respondiam:
— Um pouco mesmo.
Mas quando se tratava de rituais antigos, ele sabia quase nada.
No ano anterior, durante uma visita à sua cidade natal, Zhou Mingrui encontrou um livro antigo em uma feira:
“Rituais Antigos das Dinastias Qin e Han.”
Parecia interessante.
Ele imaginou que poderia usar o conteúdo para impressionar as pessoas na internet.
Então comprou o livro.
Mas logo perdeu o interesse.
Os textos antigos escritos verticalmente o entediavam.
Ele leu apenas algumas páginas antes de abandoná-lo em um canto.
No mês anterior, porém, Zhou Mingrui vinha tendo uma sequência terrÃvel de azar:
Perdeu o celular.
Clientes desistiram de compras.
Erros no trabalho.
Com tantos problemas, ele se lembrou de que nas primeiras páginas do livro havia um ritual para mudar a sorte e que não exigia anos de treinamento.
O ritual dizia:
Pegue os alimentos mais comuns da sua região, divida-os em quatro partes e coloque cada parte em um canto do ambiente.
Fique no centro do quarto e caminhe em sentido anti-horário formando um quadrado imaginário de quatro passos.
No primeiro passo, medite sobre:“Bênção do Senhor Imortal Xuanhuang.”No segundo:“Bênção do Mestre Celestial Xuanhuang.”No terceiro:“Bênção do Imperador Divino Xuanhuang.”No quarto:“Bênção do Senhor Celestial Xuanhuang.”Após o quarto passo, feche os olhos e permaneça parado por cinco minutos.
A cerimônia então será concluÃda com sucesso.
Pensando que não faria mal tentar, ele desenterrou o livro e realizou o ritual exatamente como descrito.
Nada aconteceu.
Quem poderia imaginar que, Ã meia-noite, ele acordaria em outro mundo?
— Uma transmigração...
Definitivamente foi o ritual.
Tudo bem.
Amanhã vou repeti-lo.
Se foi realmente ele que causou isso... talvez eu consiga voltar.
Zhou Mingrui parou de brincar com o revólver e sentou-se ereto.
Trate um cavalo morto como se ainda estivesse vivo.
Notas
- Xuanhuang — Na tradição chinesa antiga, Xuan significa negro e Huang significa amarelo. A expressão simboliza céu e terra.
- Expressão idiomática chinesa que significa fazer tudo o possÃvel mesmo quando as chances parecem mÃnimas.
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