Eu não tinha nada.
Minha primeira lembrança é a escuridão. Apenas escuridão nada além disso. E, junto dela, a consciência: eu existo.
O que faço aqui? Onde estou?
Não sei.
Mas uma coisa é certa: eu sou.
Foi então que a treva se dissipou.
Diante dos meus olhos estenderam-se um céu azul infinito e um campo verdejante.
Como? De onde? O que aconteceu?
E, afinal… quem sou eu?
Dei um passo à frente.
A relva roçou suavemente meus pés descalços, a brisa acariciou minhas faces, e meu olfato foi inundado por uma profusão de aromas desconhecidos.
A impressão foi tão profunda que me fez prender o fôlego e, sem saber por quê, comecei a chorar.
◆◆◆◆◆
— É isso que tenho sonhado ultimamente: minhas primeiras memórias. Depois de vagar um pouco por aquele lugar desconhecido, encontrei o diretor contei.
Todos se surpreenderam inclusive meu marido. Ele soltou um prolongado “Oh…”, visivelmente surpreso, mas não demonstrou inquietação nem tentou me consolar.
Dizem que ele é minha “alma gêmea”, mas ainda não compreendo plenamente o que isso significa.
E, no entanto…
— O que foi, Arin? — perguntou ele, preocupado.
— Nada… só estava olhando para você — respondi com serenidade, embora meu coração batesse mais rápido e o rubor subisse às faces.
Sem dúvida, esses são os chamados “sintomas de uma noiva apaixonada”.
— É provável que você também venha de outro mundo, Arin-san, assim como eu observou, pensativa, Lilith-sensei, acariciando o queixo.
Ela própria nascera em outra dimensão, destruída por seu pai, o Senhor das Trevas, que a enviara para o nosso mundo.
Lilith-sensei talvez esteja certa. Aquela vastidão vazia poderia muito bem ter sido um mundo morto.
— O diretor simplesmente apareceu diante de mim e disse que tinha vindo me receber.
— Ele sempre foi excêntrico… mas coincidências assim chegam a ser inquietantes — comentou Lilith-sensei.
Todos assentiram.
Eu devia ter uns oito anos na época. Sim, é difícil negar: era exagerado sob muitos aspectos.
— Aliás, nesses últimos anos o diretor não mudou nada.
— Ele nunca muda. Deve ser magia da imortalidade. Todo arquimago a domina comentou Levi.
Então um mago sem juventude eterna é considerado incompleto? Sinto que já ouvi algo assim antes.
— A diretora Libera parece uma garota embrou meu marido.
Ao que parece, as magas recorrem com frequência a técnicas de rejuvenescimento. Ainda assim, estou longe de alcançar tal nível.
— Então foi o diretor quem a levou para a academia? — retomou Selina, inclinando-se para mim com o bloco de notas em mãos, ansiosa pela continuação.
A curiosidade é qualidade indispensável a qualquer mago digno, e nesse aspecto Selina supera, de longe, nós da Trindade. Deveríamos aprender com ela.
— Sim. E, no caminho, fomos atacados por demônios misteriosos.
— Demônios misteriosos?
— Ah! Já ouvi falar disso! — exclamou Yui, batendo palmas. — Dizem que, além dos limites da academia, às vezes surgem demônios estranhos, impossíveis de analisar com feitiços.
— Eles aparecem sempre que eu saio da academia — acrescentei.
— O quê?! — Yui arregalou os olhos.
Talvez fosse melhor explicar.
— Sempre que deixo o território da academia, surgem demônios que ninguém jamais viu. Alguns conseguimos derrotar. De outros, tivemos de fugir.
— “Tivemos”? Quer dizer que até o diretor…? — perguntou Selina, empalidecendo.
— Sim. Ele dizia: “Não vale a pena. Vamos recuar.”
— O diretor… um mago classe Paladino… recuou!
Levi ouvira tudo em silêncio. De tempos em tempos, levantava o olhar discretamente embora, no meu caso, eu tivesse percebido de imediato, apenas optando por não comentar.
Então ela declarou:
— São os Outros.
Sempre me impressionou o quanto Levi sabe. Enquanto todos ainda digerem a informação, para ela tudo já é evidente.
Talvez seja por ter vivido no lado sombrio do mundo. Ou talvez simplesmente aprenda com rapidez excepcional.
— Sim, Levi. Você tem razão. O que esperar menos de uma ninja?
— Há muitas coisas que um ninja sabe — respondeu ela, orgulhosa.
Eu própria só recentemente soube da existência dos Outros.
Se algum dia Levi se tornasse inimiga do meu marido… Não. Prefiro nem imaginar.
— Quem são esses “Outros”? Seus admiradores, Arin? — perguntou ele.
— Pode-se dizer que sim. Mas não precisa se preocupar. Eles já não aparecem perto de mim.
— Entendo… que bom — respondeu, aliviado.
Meu peito tornou a se aquecer.
— Mas por quê? — quis saber Lilith-sensei.
Mostrei-lhe o anel no qual estava selado meu grimório, Ragna Yggdrasil.
— Porque eu fui até lá para obter a lança.
— Até onde…?
— À Biblioteca da Árvore do Mundo uma dimensão contida dentro de Ragna Yggdrasil, que me acompanha desde que despertei neste mundo.
E então lhes contei como, sufocando meu próprio orgulho, conquistei aquela lança.
◆◆◆◆◆
Enquanto meu marido, temporariamente integrado ao grupo de inspetores, cumpria uma missão na Academia Real de Liber, eu permanecia em meu quarto, estudando o grimório do amanhecer até altas horas da noite.
Ele se fortalecia a passos largos, avançando inexoravelmente rumo ao destino de Senhor das Trevas. Mais cedo ou mais tarde, a escuridão o consumiria por dentro.
Desesperei-me buscando uma forma de salvá-lo e cheguei a uma conclusão: precisava retornar à origem. À pergunta primordial quem sou eu?
Ragna Yggdrasil ainda guardava inúmeros mistérios. Muitos magos arriscam a própria vida para decifrar as inscrições de um grimório.
Despertar a magia, estudá-la, definir seu tema e obter um grimório esses são os degraus que conduzem um estudante ao título de mago. Só então ele pode liberar o poder do livro e entrar no modo magus.
Selina não possui grimório; tecnicamente, ainda é aprendiz. Eu, ao contrário assim como meu marido o possuía desde o primeiro instante de autoconsciência neste mundo. Saltei etapas e mergulhei direto na pesquisa.
Decidi, portanto, regressar ao ponto de partida.
Para isso, era necessário duvidar do próprio grimório rejeitar a magia nele contida.
Em termos simples, magia é o caminho da negação.
Desafiamos a moral, buscamos aquilo que nos falta.
No meu caso, a ira.
Raramente experimento emoções intensas. Ira… é algo que desconheço. Ela não existe em mim.
Esse foi o ponto de partida de minha investigação.
Após incontáveis tentativas e erros, compreendi a natureza da ira. E percebi que não desejo destruir.
Não há em mim a fúria primordial que, cegando a razão, reduz tudo a escombros.
É necessário? Para quê? Com que propósito?
Responder a isso é tão difícil quanto encontrar o sentido da vida.
Ainda assim, escolhi o tema da “Ruína”.
E, ao estudá-lo, tornei-me uma das integrantes da Trindade.
— Desta vez, farei diferente.
Concentrei-me no anel que selava Ragna Yggdrasil.
Normalmente, ao infundir magia, ele se transforma em livro.
Mas agora…
— Conectando ao Arquivo “Ira”. Manifestando o tema.
Sem entrar no modo magus, preenchi o anel com Ruína.
Ele brilhou em azul pálido.
Uma dor lancinante percorreu meu corpo.
Mago e grimório são um só, corpo e alma.
A Ruína começou a corroer-me por dentro.
Então a tormenta se abateu sobre mim agulhas incandescentes nas veias, lâminas rasgando órgãos, um martelo esmagando meu crânio.
A própria ideia de Ruína rugia dentro de mim.
Não suportei.
E perdi a consciência.
“Talvez eu não seja tão forte assim…” foi meu último pensamento.
Quando despertei, encontrava-me no interior de uma árvore colossal vasta o bastante para conter nossa academia inteira, e mais.
Prateleiras talhadas nas paredes sustentavam incontáveis livros.
— Onde estou?
— Bem-vinda à Biblioteca da Árvore do Mundo, maga soou uma voz feminina.
Virei-me.
Diante de mim estava uma cavaleira de armadura verde, leve e perfeitamente ajustada ao corpo.
— A Biblioteca da Árvore do Mundo… o santuário onde se guardam todos os conhecimentos das runas. Dizem que desapareceu no Ragnarök.
— Correto. Aprende rápido. Não esperava menos de quem ousou chegar aqui. Você utilizou magia autodestrutiva para buscar a verdade. Admirável. O que a trouxe?
— Preciso de poder. A qualquer custo.
Ela empunhava uma lança incomum, de ponta espiralada Gáe Bolg, arma rúnica suprema.
— Você é Scáthach, fundadora das Runas do Caos?
— Infelizmente, não. Sou apenas um fragmento de sua vontade, preso a esta dimensão.
Ela soava relaxada mas sua presença era mais ameaçadora que a de um demônio supremo.
— Se deseja poder, demonstre resolução.
Ergui a mão.
— Conectando ao Arquivo “Ira”.
— Não será tão simples.
O anel tornou-se livro; a lança envolveu-se em luz azulada.
— Manifestar o tema! — ecoaram duas vozes.
Círculos rúnicos cintilaram sob nossos pés.
Comecei com o que melhor dominava:
— Tiwaz!
A runa da vitória estabilizou minha energia.
Mas vitória a qualquer custo… não condiz comigo.
Ela traçou a mesma runa.
Anulariam-se.
— Kenaz!
Chamas a envolveram — apenas para serem dissipadas por chamas idênticas.
Ela copiava cada movimento.
Então recorri ao meu trunfo recente:
— Uruz!
Energia pura irrompeu de mim. Por instantes, meu poder elevou-se ao nível de Yui, a Cardeal. Mas, se não anulasse a runa a tempo, eu me tornaria um demônio.
— Ousado — comentou a cavaleira.
Não parei.
— Fehu!
— Eihwaz!
Uma flecha de luz formou-se na esquerda; um arco, na direita.
Trindade da magia três forças multiplicadas por trinta e três.
Mas ela replicou cada símbolo.
Vacilei por um segundo.
— Está terminado. Retorne ao seu mundo. Othala.
A runa brilhou acima de mim.
No seu núcleo, vi apenas treva e vazio.
Eu não retornaria à academia. Voltaria ao nada.
— Othala!
Cancelei Uruz, Fehu e Eihwaz, traçando a runa de retorno inútil contra quem nascera ali.
Não podia vencer.
Restava-me a escuridão.
— Meu marido…
Desenhei Othala mais uma vez mas voltada para mim, preenchendo-a com a imagem dele.
Por que meu lar deveria ser o vazio?
Meu verdadeiro lugar é ao lado dele.
Lá é meu mundo.
E as lágrimas finalmente caíram.
Senti um desejo ardente de vê-lo de tomar sua mão, de abraçá-lo.
E não apenas a ele, mas a todas as integrantes da Trindade, a Selina, aos grimórios…
Queria estar cercada de sorrisos.
Era isso o verdadeiro milagre.
Um milagre insubstituível.
Algo que eu jamais desejaria destruir.
— Eu quero… ficar com ele… e com todos os outros… — sussurrei, com a voz rouca e trêmula.
Então, diante dos meus olhos, uma runa irrompeu em luz embora eu não a tivesse traçado nem invocado qualquer círculo mágico.
Era…
— Ansuz?
Ansuz brilhou com intensidade crescente, e sobre ele sobrepôs-se outra runa, semelhante a Algiz.
Compreendi instintivamente o significado daquela combinação…
Amizade. Amicitia.
— Oh… então você conseguiu criar runas da alma, mesmo com um pé já mergulhado nas trevas — admirou-se o fragmento de Scáthach.
De fato, eu ainda não havia estudado Ansuz nem Algiz. Ainda assim, elas surgiram, fundiram-se a Othala e resplandeceram com novo fulgor.
— Sua alma não é humana… e, ainda assim, você desejou como um ser humano. Desejou em voz alta. Por isso, Odin aquele que nos concedeu as runas atenderá ao seu pedido.
Othala transformou-se em outro símbolo.
— Esta é a última runa. Ela não nasceu no mundo destinado a perecer nas chamas do Ragnarök. “Partum”. Seu novo tema.
— “Partum”… — repeti.
Sob meus pés, um círculo mágico diferente se acendeu estranho, desconhecido.
Sua luz fluiu para dentro de mim, trazendo uma energia nova: cálida, reconfortante.
Por um instante, tive a nítida sensação de que meu marido se aproximava e me envolvia nos braços.
— Você quebrou a si mesma e encontrou seu tema. Superou a provação. Tome. Esta é a arma de “Partum”: a lança mágica Gáe Bolg. Ela será a pedra angular de seu poder e a ligará à pátria que você mesma escolher. A partir de agora, ela é sua.
Scáthach resplandeceu e fundiu-se à Gáe Bolg, impregnando-a com a magia de Partum.
— Obrigada… fragmento. Eu quero estar com meu marido e meus amigos declarei com firmeza, segurando o cabo da lança.
A biblioteca foi então banhada por uma luz como a do sol.
A última lágrima deslizou por minha face.
◆◆◆◆◆
— E foi assim que obtive a Gáe Bolg, meu marido.
— Arin… você foi sozinha a um lugar tão perigoso…
Ele não parecia surpreso estava preocupado. Isso me deixou feliz.
— Pois bem, meu marido. Preciso estudar meu novo tema. E, para isso, teremos de ter um filho. — Aproximei-me e o abracei.
— E-espera… então esse é o seu tema?!
— Gerar vida também é uma forma de criação.
— Eu não permito!
Como sempre, Lilith-sensei vermelha até as pontas das orelhas interpôs-se entre nós. Seu constrangimento é adorável.
— Como tudo se complica…
— Oh, Arin… você aprendeu a sorrir? Que maravilhoso! — exclamou meu marido, rindo.
O sorriso do homem que amo. Os sorrisos das minhas queridas amigas… Já não pertenço àquela escuridão. Meu lar é aqui.
E, naquele instante, compreendi:
eu era feliz.

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