quarta-feira, 4 de março de 2026

Trinity Seven Vol. 01 - Capítulo 03

Capítulo 03 — A Donzela da Ruína e a Lança da Criação

Eu não tinha nada.

Minha primeira lembrança é a escuridão. Apenas escuridão nada além disso. E, junto dela, a consciência: eu existo.

O que faço aqui? Onde estou?

Não sei.

Mas uma coisa é certa: eu sou.

Foi então que a treva se dissipou.

Diante dos meus olhos estenderam-se um céu azul infinito e um campo verdejante.

Como? De onde? O que aconteceu?

E, afinal… quem sou eu?

Dei um passo à frente.

A relva roçou suavemente meus pés descalços, a brisa acariciou minhas faces, e meu olfato foi inundado por uma profusão de aromas desconhecidos.

A impressão foi tão profunda que me fez prender o fôlego e, sem saber por quê, comecei a chorar.

◆◆◆◆◆

— É isso que tenho sonhado ultimamente: minhas primeiras memórias. Depois de vagar um pouco por aquele lugar desconhecido, encontrei o diretor contei.

Todos se surpreenderam inclusive meu marido. Ele soltou um prolongado “Oh…”, visivelmente surpreso, mas não demonstrou inquietação nem tentou me consolar.

Dizem que ele é minha “alma gêmea”, mas ainda não compreendo plenamente o que isso significa.

E, no entanto…

— O que foi, Arin? — perguntou ele, preocupado.

— Nada… só estava olhando para você — respondi com serenidade, embora meu coração batesse mais rápido e o rubor subisse às faces.

Sem dúvida, esses são os chamados “sintomas de uma noiva apaixonada”.

— É provável que você também venha de outro mundo, Arin-san, assim como eu observou, pensativa, Lilith-sensei, acariciando o queixo.

Ela própria nascera em outra dimensão, destruída por seu pai, o Senhor das Trevas, que a enviara para o nosso mundo.

Lilith-sensei talvez esteja certa. Aquela vastidão vazia poderia muito bem ter sido um mundo morto.

— O diretor simplesmente apareceu diante de mim e disse que tinha vindo me receber.

— Ele sempre foi excêntrico… mas coincidências assim chegam a ser inquietantes — comentou Lilith-sensei.

Todos assentiram.

Eu devia ter uns oito anos na época. Sim, é difícil negar: era exagerado sob muitos aspectos.

— Aliás, nesses últimos anos o diretor não mudou nada.

— Ele nunca muda. Deve ser magia da imortalidade. Todo arquimago a domina comentou Levi.

Então um mago sem juventude eterna é considerado incompleto? Sinto que já ouvi algo assim antes.

— A diretora Libera parece uma garota embrou meu marido.

Ao que parece, as magas recorrem com frequência a técnicas de rejuvenescimento. Ainda assim, estou longe de alcançar tal nível.

— Então foi o diretor quem a levou para a academia? — retomou Selina, inclinando-se para mim com o bloco de notas em mãos, ansiosa pela continuação.

A curiosidade é qualidade indispensável a qualquer mago digno, e nesse aspecto Selina supera, de longe, nós da Trindade. Deveríamos aprender com ela.

— Sim. E, no caminho, fomos atacados por demônios misteriosos.

— Demônios misteriosos?

— Ah! Já ouvi falar disso! — exclamou Yui, batendo palmas. — Dizem que, além dos limites da academia, às vezes surgem demônios estranhos, impossíveis de analisar com feitiços.

— Eles aparecem sempre que eu saio da academia — acrescentei.

— O quê?! — Yui arregalou os olhos.

Talvez fosse melhor explicar.

— Sempre que deixo o território da academia, surgem demônios que ninguém jamais viu. Alguns conseguimos derrotar. De outros, tivemos de fugir.

— “Tivemos”? Quer dizer que até o diretor…? — perguntou Selina, empalidecendo.

— Sim. Ele dizia: “Não vale a pena. Vamos recuar.”

— O diretor… um mago classe Paladino… recuou!

Levi ouvira tudo em silêncio. De tempos em tempos, levantava o olhar discretamente embora, no meu caso, eu tivesse percebido de imediato, apenas optando por não comentar.

Então ela declarou:

— São os Outros.

Sempre me impressionou o quanto Levi sabe. Enquanto todos ainda digerem a informação, para ela tudo já é evidente.

Talvez seja por ter vivido no lado sombrio do mundo. Ou talvez simplesmente aprenda com rapidez excepcional.

— Sim, Levi. Você tem razão. O que esperar menos de uma ninja?

— Há muitas coisas que um ninja sabe — respondeu ela, orgulhosa.

Eu própria só recentemente soube da existência dos Outros.

Se algum dia Levi se tornasse inimiga do meu marido… Não. Prefiro nem imaginar.

— Quem são esses “Outros”? Seus admiradores, Arin? — perguntou ele.

— Pode-se dizer que sim. Mas não precisa se preocupar. Eles já não aparecem perto de mim.

— Entendo… que bom — respondeu, aliviado.

Meu peito tornou a se aquecer.

— Mas por quê? — quis saber Lilith-sensei.

Mostrei-lhe o anel no qual estava selado meu grimório, Ragna Yggdrasil.

— Porque eu fui até lá para obter a lança.

— Até onde…?

— À Biblioteca da Árvore do Mundo uma dimensão contida dentro de Ragna Yggdrasil, que me acompanha desde que despertei neste mundo.

E então lhes contei como, sufocando meu próprio orgulho, conquistei aquela lança.

◆◆◆◆◆

Enquanto meu marido, temporariamente integrado ao grupo de inspetores, cumpria uma missão na Academia Real de Liber, eu permanecia em meu quarto, estudando o grimório do amanhecer até altas horas da noite.

Ele se fortalecia a passos largos, avançando inexoravelmente rumo ao destino de Senhor das Trevas. Mais cedo ou mais tarde, a escuridão o consumiria por dentro.

Desesperei-me buscando uma forma de salvá-lo e cheguei a uma conclusão: precisava retornar à origem. À pergunta primordial quem sou eu?

Ragna Yggdrasil ainda guardava inúmeros mistérios. Muitos magos arriscam a própria vida para decifrar as inscrições de um grimório.

Despertar a magia, estudá-la, definir seu tema e obter um grimório esses são os degraus que conduzem um estudante ao título de mago. Só então ele pode liberar o poder do livro e entrar no modo magus.

Selina não possui grimório; tecnicamente, ainda é aprendiz. Eu, ao contrário assim como meu marido o possuía desde o primeiro instante de autoconsciência neste mundo. Saltei etapas e mergulhei direto na pesquisa.

Decidi, portanto, regressar ao ponto de partida.

Para isso, era necessário duvidar do próprio grimório rejeitar a magia nele contida.

Em termos simples, magia é o caminho da negação.

Desafiamos a moral, buscamos aquilo que nos falta.

No meu caso, a ira.

Raramente experimento emoções intensas. Ira… é algo que desconheço. Ela não existe em mim.

Esse foi o ponto de partida de minha investigação.

Após incontáveis tentativas e erros, compreendi a natureza da ira. E percebi que não desejo destruir.

Não há em mim a fúria primordial que, cegando a razão, reduz tudo a escombros.

É necessário? Para quê? Com que propósito?

Responder a isso é tão difícil quanto encontrar o sentido da vida.

Ainda assim, escolhi o tema da “Ruína”.

E, ao estudá-lo, tornei-me uma das integrantes da Trindade.

— Desta vez, farei diferente.

Concentrei-me no anel que selava Ragna Yggdrasil.

Normalmente, ao infundir magia, ele se transforma em livro.

Mas agora…

— Conectando ao Arquivo “Ira”. Manifestando o tema.

Sem entrar no modo magus, preenchi o anel com Ruína.

Ele brilhou em azul pálido.

Uma dor lancinante percorreu meu corpo.

Mago e grimório são um só, corpo e alma.

A Ruína começou a corroer-me por dentro.

Então a tormenta se abateu sobre mim agulhas incandescentes nas veias, lâminas rasgando órgãos, um martelo esmagando meu crânio.

A própria ideia de Ruína rugia dentro de mim.

Não suportei.

E perdi a consciência.

“Talvez eu não seja tão forte assim…” foi meu último pensamento.

Quando despertei, encontrava-me no interior de uma árvore colossal vasta o bastante para conter nossa academia inteira, e mais.

Prateleiras talhadas nas paredes sustentavam incontáveis livros.

— Onde estou?

— Bem-vinda à Biblioteca da Árvore do Mundo, maga soou uma voz feminina.

Virei-me.

Diante de mim estava uma cavaleira de armadura verde, leve e perfeitamente ajustada ao corpo.

— A Biblioteca da Árvore do Mundo… o santuário onde se guardam todos os conhecimentos das runas. Dizem que desapareceu no Ragnarök.

— Correto. Aprende rápido. Não esperava menos de quem ousou chegar aqui. Você utilizou magia autodestrutiva para buscar a verdade. Admirável. O que a trouxe?

— Preciso de poder. A qualquer custo.

Ela empunhava uma lança incomum, de ponta espiralada Gáe Bolg, arma rúnica suprema.

— Você é Scáthach, fundadora das Runas do Caos?

— Infelizmente, não. Sou apenas um fragmento de sua vontade, preso a esta dimensão.

Ela soava relaxada mas sua presença era mais ameaçadora que a de um demônio supremo.

— Se deseja poder, demonstre resolução.

Ergui a mão.

— Conectando ao Arquivo “Ira”.

— Não será tão simples.

O anel tornou-se livro; a lança envolveu-se em luz azulada.

— Manifestar o tema! — ecoaram duas vozes.

Círculos rúnicos cintilaram sob nossos pés.

Comecei com o que melhor dominava:

— Tiwaz!

A runa da vitória estabilizou minha energia.

Mas vitória a qualquer custo… não condiz comigo.

Ela traçou a mesma runa.

Anulariam-se.

— Kenaz!

Chamas a envolveram — apenas para serem dissipadas por chamas idênticas.

Ela copiava cada movimento.

Então recorri ao meu trunfo recente:

— Uruz!

Energia pura irrompeu de mim. Por instantes, meu poder elevou-se ao nível de Yui, a Cardeal. Mas, se não anulasse a runa a tempo, eu me tornaria um demônio.

— Ousado — comentou a cavaleira.

Não parei.

— Fehu!
— Eihwaz!

Uma flecha de luz formou-se na esquerda; um arco, na direita.

Trindade da magia três forças multiplicadas por trinta e três.

Mas ela replicou cada símbolo.

Vacilei por um segundo.

— Está terminado. Retorne ao seu mundo. Othala.

A runa brilhou acima de mim.

No seu núcleo, vi apenas treva e vazio.

Eu não retornaria à academia. Voltaria ao nada.

— Othala!

Cancelei Uruz, Fehu e Eihwaz, traçando a runa de retorno inútil contra quem nascera ali.

Não podia vencer.

Restava-me a escuridão.

— Meu marido…

Desenhei Othala mais uma vez mas voltada para mim, preenchendo-a com a imagem dele.

Por que meu lar deveria ser o vazio?

Meu verdadeiro lugar é ao lado dele.

Lá é meu mundo.

E as lágrimas finalmente caíram.

Senti um desejo ardente de vê-lo de tomar sua mão, de abraçá-lo.
E não apenas a ele, mas a todas as integrantes da Trindade, a Selina, aos grimórios…
Queria estar cercada de sorrisos.

Era isso o verdadeiro milagre.
Um milagre insubstituível.
Algo que eu jamais desejaria destruir.

— Eu quero… ficar com ele… e com todos os outros… — sussurrei, com a voz rouca e trêmula.

Então, diante dos meus olhos, uma runa irrompeu em luz embora eu não a tivesse traçado nem invocado qualquer círculo mágico.

Era…

— Ansuz?

Ansuz brilhou com intensidade crescente, e sobre ele sobrepôs-se outra runa, semelhante a Algiz.

Compreendi instintivamente o significado daquela combinação…
Amizade. Amicitia.

— Oh… então você conseguiu criar runas da alma, mesmo com um pé já mergulhado nas trevas — admirou-se o fragmento de Scáthach.

De fato, eu ainda não havia estudado Ansuz nem Algiz. Ainda assim, elas surgiram, fundiram-se a Othala e resplandeceram com novo fulgor.

— Sua alma não é humana… e, ainda assim, você desejou como um ser humano. Desejou em voz alta. Por isso, Odin aquele que nos concedeu as runas atenderá ao seu pedido.

Othala transformou-se em outro símbolo.

— Esta é a última runa. Ela não nasceu no mundo destinado a perecer nas chamas do Ragnarök. “Partum”. Seu novo tema.

— “Partum”… — repeti.

Sob meus pés, um círculo mágico diferente se acendeu estranho, desconhecido.

Sua luz fluiu para dentro de mim, trazendo uma energia nova: cálida, reconfortante.

Por um instante, tive a nítida sensação de que meu marido se aproximava e me envolvia nos braços.

— Você quebrou a si mesma e encontrou seu tema. Superou a provação. Tome. Esta é a arma de “Partum”: a lança mágica Gáe Bolg. Ela será a pedra angular de seu poder e a ligará à pátria que você mesma escolher. A partir de agora, ela é sua.

Scáthach resplandeceu e fundiu-se à Gáe Bolg, impregnando-a com a magia de Partum.

— Obrigada… fragmento. Eu quero estar com meu marido e meus amigos declarei com firmeza, segurando o cabo da lança.

A biblioteca foi então banhada por uma luz como a do sol.

A última lágrima deslizou por minha face.

◆◆◆◆◆

— E foi assim que obtive a Gáe Bolg, meu marido.

— Arin… você foi sozinha a um lugar tão perigoso…

Ele não parecia surpreso estava preocupado. Isso me deixou feliz.

— Pois bem, meu marido. Preciso estudar meu novo tema. E, para isso, teremos de ter um filho. — Aproximei-me e o abracei.

— E-espera… então esse é o seu tema?!

— Gerar vida também é uma forma de criação.

— Eu não permito!

Como sempre, Lilith-sensei vermelha até as pontas das orelhas interpôs-se entre nós. Seu constrangimento é adorável.

— Como tudo se complica…

— Oh, Arin… você aprendeu a sorrir? Que maravilhoso! — exclamou meu marido, rindo.

O sorriso do homem que amo. Os sorrisos das minhas queridas amigas… Já não pertenço àquela escuridão. Meu lar é aqui.

E, naquele instante, compreendi:
eu era feliz.

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