segunda-feira, 6 de abril de 2026

Chainsaw Man - Capítulo 04 (final)

Capítulo 04 — Enoshima, a ilha dos sonhos

Denji acordou com o próprio ronco. Pontos de luz dançavam na borda de sua visão. Levou um segundo para perceber que era a luz do sol atravessando as janelas. As casas passavam rapidamente, desaparecendo assim que surgiam.

Um ritmo constante fazia cócegas em seus ouvidos: tu-dum, tu-dum. Tu-dum, tu-dum. O som do trem correndo pelos trilhos. A vibração suave do assento era tão relaxante que parecia que ele ainda estava dormindo.

— O que eu estou fazendo num trem? — perguntou, bocejando.

A mulher com chifres no assento ao lado revirou os olhos.
— Sacode esse sono da cabeça, Denji.

— Para com isso, Power — disse o homem de cabelos escuros sentado à frente dela. Ele se virou para Denji. — É por isso que eu te disse ontem pra dormir mais cedo.

— Está tudo bem, Hayakawa — disse a última do grupo, a mulher de roupa azul-escura sentada à frente de Denji. Quando ele olhava para ela, era difícil pensar em qualquer outra coisa. — Denji estava animado demais com essa viagem pra conseguir dormir. Não é mesmo, Denji?

— Senhorita Makima! — exclamou Denji, quase pulando do assento. — Ah, é mesmo… Enoshima.

Finalmente ele se lembrou. Finalmente estavam cumprindo a promessa. Makima e os três moradores da casa de Hayakawa estavam indo em uma viagem para Enoshima.

— Você acordou bem na hora certa — sorriu Makima. E ela estava certa: do lado de fora, os bairros residenciais davam lugar a um mar azul cristalino. O sol brilhava sobre a superfície da água, dourando as ondas com cristas brancas. Um bando de aves marinhas passou alto sobre eles, soltando seus gritos enquanto deslizavam majestosamente pelo céu.

— Caramba! O mar! — gritou Denji.

— O mar! O mar! — repetiu Power. Os dois colaram o rosto nas janelas.

— Mais baixo, vocês dois — franziu a testa Aki. — Não estamos sozinhos no vagão.

Denji sorriu e trocou um olhar com Power. Eles deram os braços, como irmãos.
— Ah, deixa de ser chato — disse Denji. — Se nem na praia dá pra se animar, então pra quê dá?

— O rabo de cavalo reclama de tudo!

— Pelo menos tentem pensar nas outras pessoas — resmungou Aki.


— Ah, deixe-os, Aki Hayakawa. Não é todo dia que conseguimos tirar férias — disse Makima calmamente. A janela estava levemente aberta, deixando entrar a brisa do mar que brincava com sua franja.

— Se a senhora diz, senhorita Makima… — concordou Aki.

O fato de Aki ter cedido agradou Denji, que se recostou no assento.
— Caramba, férias com a senhorita Makima! Isso é tipo um sonho!

— Bem, vocês têm trabalhado muito ultimamente. Só lamento que não possamos fazer isso com mais frequência. Normalmente precisamos ficar perto do escritório — disse Makima.

Denji acenou despreocupadamente.
— Pode confiar, senhorita! Em Enoshima vai ser incrível!

— Fico curioso, Denji — disse Aki. — Você faz ideia do que é a ilha de Enoshima?

Denji bufou.
— Uma ilha. Meio óbvio.

— É verdade, mas essa ilha… é especial — disse Makima. Ela fez um círculo com o polegar e o indicador da mão direita. — A maioria das ilhas é cercada por água, certo? — então encostou o dedo indicador da mão esquerda na base do círculo. — Enoshima é o que chamam de ilha conectada ao continente. A areia acumulada forma uma espécie de ponte entre a ilha e a terra firme.

— Ah! Claro! — Denji cruzou os braços e assentiu, mesmo achando a explicação meio confusa.

Ela sorriu.
— Pense assim: a maioria das ilhas é solitária. Elas não podem tocar nada. Enoshima é conectada à terra, então não é uma ilha solitária.

— Ah… faz sentido, eu acho.

— Lá está — disse Makima, apontando pela janela. No horizonte surgiu uma faixa verde cercada por nuvens brancas.

— Uau… — disse Denji. — Menor do que eu esperava.

— Talvez seja interessante saber — declarou Power — que eu tenho uma casa de veraneio nessa ilha!

— Ah, legal — respondeu Denji, indiferente.

— Por que você não ficou impressionado?! — exigiu Power. — Está dizendo que eu estou mentindo?

— Mais ou menos.

— Insulto! — proclamou ela. — Ainda assim, você continua sendo meu parceiro. Estou dizendo a verdade!

Denji suspirou.
— Tá bom. Então onde fica sua casa?

Power apontou pela janela.
— Bem ali! Está vendo aquela mansão luxuosa que perfura o céu no centro da ilha?

Ao longe, Denji viu um prédio alto em forma de vela.

— Contemple minha vila!

— Power… isso é o farol de Enoshima — disse Aki.

Sem se abalar, Power bateu no ombro de Denji.
— Um farol, Denji! Aposto que você não sabia disso!

— Agora eu sei, valeu.

Makima riu suavemente.
— Vocês dois são uma dupla e tanto. Em casa é assim também?

Denji coçou a cabeça.
— Sim, somos tipo uma dupla de comédia 24 horas por dia.

O trem finalmente parou na costa, com vista para a ilha de Enoshima.

— Podemos deixar a bagagem no hotel — disse Makima — antes de irmos explorar.

Eles desceram na estação e seguiram até um hotel à beira-mar. Depois de deixarem as malas, como Makima sugeriu, voltaram para a rua sob o sol da ilha.

Denji correu para ficar ao lado dela na frente do grupo.
— Então, senhorita Makima, qual é o plano?

— Boa pergunta. O que você quer fazer, Denji?

— Eu quero fazer qualquer coisa… desde que seja com a senhora.

— Tenta pelo menos ter suas próprias ideias! — gritou Aki Hayakawa atrás deles. — Senhorita Makima, já que estamos aqui, acho que deveríamos ver os pontos turísticos. — Ele acenava com um guia.

— O mar! O mar me chama! — Power levantou o braço para o céu. — Hora de nadar!

Makima levou um dedo ao queixo, pensativa, e então assentiu.
— Certo. Primeiro, fazemos um passeio rápido pela ilha. Depois, podemos entrar no mar. Quando escurecer, será um bom momento para aproveitar o hotel. E depois…

— Sim? — disse Denji. — Depois o quê?

Ela sorriu levemente.
— Prometo que você vai gostar.

Um arrepio de curiosidade percorreu Denji, mas por enquanto já bastava estar ao lado dela.

— Assim que atravessarmos a ponte Benten, estaremos em Enoshima — disse Makima, apontando para a ponte sobre a faixa de areia à frente. Eles estavam quase lá.

O sol de verão ao meio-dia projetava sombras fortes sobre o chão de pedra, mas a brisa do mar amenizava o calor. Denji ouvia o som das ondas indo e vindo — era como se o mar realmente os chamasse.

— Enoshima! — exclamou Denji, emocionado ao pisar na ilha.

Eles passaram sob um grande portão torii vermelho. Além dele, uma rua cheia de restaurantes e lojas de souvenirs se estendia diante deles.

— Olha, rabo-de-cavalo! — gritou Power do fundo do grupo. — Comida! Eu quero comer! — Ela farejou o ar.

— Comer? De novo? A gente não comprou um bento pra você na estação?

— Bento… bento… — Power fez cara de inocente. — Nunca ouvi falar disso.

Aki suspirou e entrou em uma lanchonete próxima. Pouco depois, saiu com um sorvete.
— Por minha conta. Já que estamos de férias, podemos nos dar esse luxo.

Power pegou o sorvete animada.
— Ga-ha-ha! Excelente decisão! Eu— espera… por que tem peixe nisso?

O sorvete escuro estava coberto com pequenos peixinhos brancos.

— É especial. Um prato típico de Enoshima — explicou Aki.

— Hm… — relutante, Power deu uma mordida. — Tem gosto… de mar… — ela fez uma careta.

— Deixa eu provar — disse Denji, pegando o sorvete e dando uma grande mordida. — Caramba! É bom!

— Bom?! — disse Power, horrorizada. — Quem coloca peixe em sorvete?!

— Ué, você come os dois ao mesmo tempo. Economia de tempo!

Aki experimentou também.
— Hm… surpreendentemente bom. O doce combina com o salgado.

— Decide logo se gosta ou não — disse Denji.

— Estou só sendo honesto!

Makima observava tudo à frente, sorrindo.
— É bom ver como a família Hayakawa é próxima.

Os três se entreolharam.

Aki suspirou.
— Não sei se diria “próxima”. Me sinto mais como um pai com dois pirralhos problemáticos.

— Que fofo — resmungou Denji.

— Você devia se sentir honrado! — disse Power com arrogância.

— Não se ache tanto!

— Você tem razão, Hayakawa — disse Makima com leve humor. — Você realmente parece a mãe deles.

— M-mãe…?!

Denji e Power começaram a rir.

— Você é a mamãe, Aki!

— Mamãe de rabo de cavalo!

— CALA A BOCA! EU VOU JOGAR VOCÊS NO OCEANO! — gritou Aki, enquanto os dois fugiam dele rindo.


Depois que a confusão finalmente diminuiu, o grupo percebeu que estava caminhando por uma rua comercial perto da ponte. À frente, havia uma escadaria e outro portão torii.

— O Santuário de Enoshima fica logo ali — disse Makima, conduzindo-os para dentro.

Aki Hayakawa lia o guia enquanto caminhava, apontando os três pavilhões do templo e contando alguns fatos históricos. Para Denji, tudo entrava por um ouvido e saía pelo outro. Ele só sabia que, quanto mais avançavam, mais o mar parecia próximo e melhor ele se sentia.

Quando chegaram ao terceiro pavilhão, Makima se virou para Denji e Power.

— Algum de vocês já fez uma oração em um templo antes?

Os dois balançaram a cabeça.

— Não — disse Denji.

— Eu sou praticamente uma deusa — respondeu Power com superioridade. — Vocês é que deveriam me adorar.

Makima sorriu e pegou uma moeda de cinco ienes.
— Deixe-me mostrar como se faz.

Ela jogou a moeda na caixa de ofertas, fez duas reverências, bateu palmas duas vezes e então juntou as mãos, fechando os olhos.

— É assim que se faz um pedido aos deuses.

— Ga-ha-ha! — riu Power. — Que bobagem! Desejos se realizam com força de vontade!

Mesmo assim, ela correu para tentar. Jogou uma moeda — provavelmente roubada de Aki e bateu palmas dramaticamente.

— Eu desejo um Prêmio Nobel! E também que todos os humanos morram! E que a criatura chamada Makima desapareça deste mundo!

— Não é necessário dizer seus desejos em voz alta, querida — comentou Makima calmamente.

— Engraçado você pedir tanto para alguém que acha isso inútil — disse Denji.

Power congelou por um instante e então sorriu maliciosamente.
— Você deve ter ouvido errado. Foi o Denji que disse aquela parte!

— Ei! Eu não falei isso!

— Não se preocupem — disse Makima. — Hoje vou fingir que não ouvi nada. Vamos apenas aproveitar nossas férias.

Power suspirou aliviada. Aki pigarreou.
— Acho que sou o próximo.

Ele fez sua oração em silêncio.

— Ei, Aki — disse Denji quando ele voltou. — O que você pediu?

— Prefiro não dizer.

— Aposto que foi vingança, né?

— Seria melhor do que os pedidos da Power… mas não vou incomodar os deuses com isso. Posso cuidar disso sozinho.

— Então o que foi?

Aki suspirou, irritado com a insistência.
— Eu rezei para que vocês dois encontrem felicidade.

Denji e Power ficaram em silêncio por um segundo… e então caíram na gargalhada.

— Sério isso?!

— Você pede cada coisa idiota!

— Droga! Esqueçam o que eu disse!

— Sejam gentis com a sua mãe — comentou Makima.

— EU NÃO SOU A MÃE DELES!

[...]

Quando chegou a vez de Denji, ele foi até o altar, meio hesitante. Bateu palmas como tinha visto os outros fazerem, mas ficou travado.

Ele não sabia o que pedir.

Pensou em Pochita… mas Makima disse que ele já estava dentro dele. Pedir mais parecia errado.

Ele já estava vivendo algo que parecia um sonho: uma vida normal… férias… com Makima.

Ainda assim, havia coisas que ele queria.

Comer bife no café da manhã todos os dias. Ter várias namoradas…

Mas algo dentro dele dizia que pedir demais poderia estragar tudo.

Ele abriu os olhos.

Makima estava ali, iluminada pelo sol, com o vento do mar soprando suavemente.

Era impossível alguém ser tão bonita.

Denji apertou as mãos com força.

Quero viajar de novo com a senhorita Makima!

Não… isso era pouco.

Quero sair com a senhorita Makima!

Ainda não era o suficiente.

Quero… dormir com a senhorita Makima!

Ele travou.

Mesmo depois disso, algo parecia errado.

Algo importante… que ele estava esquecendo.

Mas não conseguia lembrar.

[...]

Enquanto desciam o caminho do templo, Makima perguntou:

— O que você pediu, Denji?

— N-nada demais…

— Hm… foi algo… indecente? — ela insinuou.

— NÃO! — respondeu ele rapidamente.

— E a senhora? — perguntou ele, tentando mudar de assunto.

— Eu? Pedi por um céu limpo esta noite.

Ela sorriu de forma misteriosa e desceu os degraus.

— Agora… vamos para o mar.

— Nadar! — gritou Power, levantando os braços.

Assim começou a segunda parte das férias deles.

O grupo encontrou um trecho de praia aos pés da ponte Benten. A areia, aquecida pelo sol, queimava os pés com o calor do verão.

Denji e Aki Hayakawa, já de roupa de banho, estavam sentados sob um guarda-sol alugado, esperando Makima e Power saírem do vestiário.

— Cara… — disse Denji, com o coração batendo forte. — Não vejo a hora de ver a senhorita Makima de biquíni! Como você acha que vai ser?

Depois de um tempo, Aki deu de ombros.
— Não faço ideia.

— Ah, qual é! Imagina só! Aposto que é preto!

— Você não deveria imaginar sua chefe de biquíni — respondeu Aki.

— E qual o problema?! Só porque você não tem imaginação… — Denji resmungou, jogando-se na areia.

Aki suspirou.
— Não seria preto. A senhorita Makima usaria branco.

Denji ergueu a cabeça imediatamente.
— Sério?

Talvez Aki não fosse tão ruim assim, afinal.

— Ei, Denji… — disse Aki, olhando o horizonte.

— Hm?

— Eu achava que você era só um delinquente idiota… mas você está começando a aprender a ouvir os outros.

Denji sorriu.
— Tá ficando sentimental agora?

— Foi só um pensamento.

— Que pensamento estranho.

— Continue ouvindo, certo? E tenta ser pelo menos um pouco educado.

— Tá bom… vou tentar.

Por um momento, Aki realmente parecia… uma mãe.

Então—

— Desculpem pela demora!

Makima!

— Ela voltou! — Denji pulou de pé… e imediatamente desanimou. — Ah… você não está de biquíni…

Makima usava o mesmo vestido leve e um chapéu de palha, segurando um livro.

— Claro que não — disse ela. — Eu não pretendia nadar. Nem trouxe traje de banho.

— Aaaah… — Denji murchou completamente.

— Humanos, admirem! — anunciou Power, surgindo de repente em um biquíni preto.

Denji ficou encarando.
— Biquíni preto…

Power colocou as mãos na cintura, orgulhosa.
— Sintam-se honrados por testemunhar minha grandeza!

— Você deixou cair um peito — disse Denji, apontando.

No chão, uma das enchimentos do sutiã.

— O QUÊ?! — gritou Power, desesperada.

[...]

Mais tarde, Denji e Power estavam no mar, em um bote inflável.

— Mais rápido, Denji! — ria Power. — Reme!

Denji remava sem entusiasmo.
— Eu só queria ter visto a Makima de biquíni…

— Ainda tá chorando por isso? — reclamou Power. — Nem sei o que você vê naquela bruxa.

— Ei, ela é… — Denji parou. — O que eu vejo nela…?

Power se virou, séria.
— Tive uma ideia genial.

— Lá vem…

— Vamos fugir. Agora. Nesse barco.

— Quê?!

— Estamos no mar! E Makima está na terra! — disse ela, apontando para a praia, onde Makima lia tranquilamente. — Podemos simplesmente continuar remando até outro país!

— Acho que ela ainda ia nos pegar…

— Não esqueça — disse Power, abaixando a voz — ela não tem biquíni.

— …ah.

— Genial, não? — sorriu ela.

Power se levantou no bote, empolgada, quase virando tudo.

— Ei! Vai virar!

— Reme, Denji! Terras estrangeiras nos aguardam!

— Quão longe fica outro país?

— Uns… 500 metros?

— Nem ferrando.

— Então… 600!

— Isso não ajuda!

[...]

Depois de um tempo, Denji deitou no bote, olhando o céu.

— Acho que não dá pra fugir disso… e, pra ser sincero… eu tô feliz.

Power olhou para ele.

— O quê? — disse ele.

De repente, ela pulou em cima dele e apertou suas bochechas.

— Idiota! Você desiste rápido demais!

— Ai! Isso dói!

— Se você não vai, eu vou sozinha!

— Power…

— E quando sentir minha falta… venha me procurar!

Denji suspirou.
— Tá… entendi.

A brisa do mar passava por eles.

Power então sorriu levemente e encostou a testa na dele.

— Você consegue, Denji. Você é meu parceiro, não é?

— Power…?

Aquela sensação voltou.

Algo errado.

Algo importante que ele estava esquecendo…

Mas escapava sempre que tentava lembrar.

— Fugir? Com esse bote ridículo? — disse Aki de repente.

Ele apareceu ao lado deles na água, sem que percebessem.

— Eu queria ver vocês tentando.

Denji se levantou no bote, surpreso.
— Aki?! Desde quando você tá aí?!

Aki Hayakawa suspirou, já meio cansado.
— Desde antes de vocês começarem esse plano idiota de “fugir para outro país”.

Power cruzou os braços, irritada.
— Espião miserável! Como ousa interromper minha fuga brilhante?!

— “Brilhante”? — Aki ergueu uma sobrancelha. — Você não sobreviveria nem meia hora em mar aberto.

— Insolente! — retrucou Power. — Minha genialidade vai muito além da sua compreensão!

Denji soltou um suspiro e se recostou no bote.
— Eu já falei… eu tô bem aqui.

Aki olhou para ele por um momento, como se quisesse dizer algo… mas decidiu deixar pra lá.
— Então terminem logo essa brincadeira e voltem. A maré pode mudar.

— Tsc… estraga-prazeres — murmurou Power.

Mesmo assim, ela se sentou novamente, cruzando as pernas com um ar emburrado.

Por um instante, os três ficaram em silêncio, apenas ouvindo o som das ondas.

Denji fechou os olhos.

A sensação voltou.

Aquela mesma sensação incômoda… como se algo estivesse faltando.

Como se tudo aquilo fosse… bom demais.

Ele abriu os olhos devagar.

Ao longe, na praia, Makima ainda estava sentada sob o guarda-sol, lendo tranquilamente.

Perfeita.

Intocável.

Distante.

— …vamos voltar — disse Denji, de repente.

Power fez uma careta.
— Já? Covarde.

— Tanto faz. — Ele pegou o remo. — Aki tem razão.

Eles começaram a remar de volta.

A água brilhava sob o sol, e o som do mar continuava suave… quase hipnótico.

Mas, por mais bonito que fosse…

Denji não conseguia afastar aquela sensação.

Algo estava errado.

Muito errado.

[...]

Quando voltaram à praia, Aki saiu da água primeiro, estendendo a mão para ajudar os dois.

— Cuidado — disse ele. — A areia está quente.

— Eu não preciso da sua ajuda! — disse Power, ignorando a mão dele… e imediatamente pulando ao tocar a areia. — QUENTE! QUENTE! MALDIÇÃO!

Denji riu.
— Bem feito.

Eles voltaram para o guarda-sol.

Makima levantou os olhos do livro e sorriu.

— Já voltaram?

— Foi chato — disse Power, cruzando os braços.

— Ela tentou fugir do país — disse Aki, seco.

— TRAIÇÃO! — gritou Power. — Eu estava oferecendo liberdade!

Makima riu baixinho.
— Entendo. Parece divertido.

Denji sentou-se na areia, ainda olhando para ela.

— Senhorita Makima…

— Sim?

Ele hesitou.

Aquela sensação ainda estava ali.

Como uma sombra.

— Nada…

Makima inclinou levemente a cabeça, observando-o com curiosidade… mas não insistiu.

O som das ondas preenchia o silêncio entre eles.

O sol começava a descer lentamente no céu.

E, mesmo naquele momento de paz…

Denji sentia que algo importante estava escapando de suas mãos.

Algo que ele deveria lembrar.

Mas não conseguia.


∆ Fim ∆

quinta-feira, 5 de março de 2026

Senhor dos Mistérios Vol. 01 - Capítulo 02



Volume 01 – Capítulo 02: Situação

Bang!

Zhou Mingrui se assustou e recuou alguns passos diante do espelho. Parecia que o reflexo não mostrava ele mesmo, mas algum tipo de zumbi.

Como alguém pode continuar vivo com um ferimento desses?!

Ele simplesmente não conseguia acreditar. Inclinou a cabeça para observar melhor o outro lado. Mesmo à distância e sob a fraca luz da lua, conseguiu ver um ferimento profundo com sangue escorrendo.

— Isso...

Zhou Mingrui tentou se acalmar e respirou fundo.

Colocou a mão sobre o peito e sentiu as batidas do próprio coração fortes, rápidas e cheias de vida.

Tocou a pele e sentiu o calor vivo sob a superfície fria.

Ele se agachou por um momento, certificando-se de que seus joelhos não cederiam. Quando percebeu que conseguia se sustentar, levantou-se novamente, um pouco mais tranquilo.

— O que está acontecendo...? — murmurou, franzindo a testa enquanto se preparava para examinar novamente o ferimento na cabeça.

Depois de dar alguns passos, parou de repente.

A luz da lua que entrava pela janela não era forte o suficiente para uma inspeção cuidadosa.

Um fragmento de memória surgiu em sua mente.

Zhou Mingrui olhou para o tubo cinza na parede perto da mesa e para a lâmpada com refletor metálico.

Era uma lâmpada a gás. Funcionava conectada à tubulação e fornecia uma chama estável, além de uma iluminação excelente.

A família de Klein Moretti sequer podia se dar ao luxo de comprar uma lamparina a querosene, quanto mais uma lâmpada a gás. Velas representavam com precisão sua condição financeira e posição social.

Quatro anos atrás, Klein precisou estudar até tarde para se preparar para o exame de admissão à universidade. Quando ele apertava os olhos tentando continuar estudando sob a fraca luz das velas, seu irmão mais velho, Benson, declarou que aquilo era uma questão importante para o futuro da família.

Mesmo que fosse necessário contrair dívidas, ele garantiria boas condições de estudo para Klein.

Felizmente, Benson já trabalhava há alguns anos como funcionário qualificado e não era impulsivo nem descuidado. Usando o argumento de que instalar uma linha de gás melhoraria as condições da casa e atrairia novos inquilinos, ele conseguiu convencer o proprietário a pagar pela instalação.

Aproveitando seus contatos em outras companhias comerciais, Benson ainda conseguiu comprar uma lâmpada a gás quase pelo preço de custo. No final, ele precisou gastar apenas metade de suas economias e nem precisou pedir dinheiro emprestado.

As lembranças emergiram.

Zhou Mingrui voltou à realidade diante da mesa.

Ele abriu a válvula e girou o regulador de gás.

Um clique de ignição soou.

Mas a luz não acendeu.

— Tsk!

Zhou Mingrui girou a alavanca algumas vezes, mas a lâmpada permaneceu silenciosa.

— Ah...

Ele afastou a mão da têmpora e começou a vasculhar as memórias de outra pessoa.

Alguns segundos depois, virou-se e caminhou até a porta.

Ali, diante do mecanismo conectado aos tubos branco-acinzentados, ele parou.

Aquilo era um medidor de gás.

Observando as engrenagens e rolamentos quase novos, o jovem tirou uma moeda do bolso.

A moeda era de um amarelo escuro, semelhante ao bronze. No anverso havia a imagem de um homem coroado cercado por espigas de trigo e o número 1.

Zhou Mingrui sabia que aquela era a unidade monetária mais comum do Reino de Loen: o penny de cobre.

Seu poder de compra equivalia aproximadamente a três ou quatro dólares na Terra.

Outras denominações incluíam moedas de cinco pence, meio penny e um quarto de penny mas elas não eram suficientes para cobrir todas as necessidades do cotidiano.

Girando o penny entre os dedos uma moeda que começou a circular quando o rei George III subiu ao trono Zhou Mingrui a jogou na fenda do medidor de gás.

Clang! Clang!

Assim que a moeda caiu no fundo do aparelho, engrenagens começaram a girar. Uma pequena e curiosa melodia mecânica soou.

Zhou Mingrui observou o medidor por alguns segundos e então voltou à mesa.

Estendeu a mão para o regulador.

Click! Click! Click!

Uma chama se acendeu.

Primeiro, a luz ocupou o interior da lâmpada a gás. Em seguida, atravessou o vidro transparente e iluminou todo o quarto.

A escuridão recuou de repente, e a névoa sanguinolenta do lado de fora da janela pareceu desaparecer.

Zhou Mingrui recuperou um pouco mais a compostura e caminhou rapidamente até o espelho.

Dessa vez, examinou cuidadosamente a própria têmpora.

Ele percebeu algo estranho.

Embora ainda houvesse manchas de sangue, o ferimento não sangrava mais.

Era como se alguém tivesse aplicado um poderoso hemostático e feito um curativo.

O tecido cinzento do cérebro, que se movia levemente, estava se regenerando diante de seus olhos.

Naquela velocidade, em trinta ou quarenta minutos no máximo duas ou três horas restariam apenas cicatrizes.

— Efeito da transmigração...? — murmurou Zhou Mingrui, levantando levemente o canto da boca.

Ele soltou um longo suspiro.

Não importava o motivo.

Ele iria viver.

Depois de se acalmar, abriu a gaveta e pegou um pequeno pedaço de sabão. Em seguida, pegou uma toalha velha pendurada no lado da cômoda.

Abriu a porta e seguiu para o banheiro coletivo no segundo andar.

Preciso limpar o sangue da cabeça. Estou parecendo vítima de um assalto.

Se não me assusta, pode assustar minha irmã Melissa quando ela acordar.

Seria desagradável.

O corredor estava escuro.

Apenas a luz da lua entrava pela janela no fim do corredor, iluminando vagamente os contornos dos objetos, que pareciam olhos de monstros observando silenciosamente as pessoas.

Zhou Mingrui sentiu um leve arrepio enquanto caminhava até o banheiro.

Dentro, havia um pouco mais de luz.

Ele parou diante da pia e abriu a torneira.

O som da água correndo fez com que ele lembrasse do senhorio: Frank, um homem baixo e magro que usava cartola, colete e casaco preto.

Ele costumava ficar parado perto da porta do banheiro escutando para verificar se alguém estava desperdiçando água.

Se alguém abrisse a torneira demais, o Sr. Frank esquecia completamente as boas maneiras.

Batendo na porta com sua bengala, ele gritava:

— Ladrão maldito!
— Tenha vergonha de desperdiçar água!
— Vou lembrar de você!
— Se fizer isso de novo, vai para a rua!
— Tenho a casa mais vantajosa de toda Fullington, e vocês não encontrarão um proprietário mais generoso do que eu!

Afastando esses pensamentos inúteis, Zhou Mingrui molhou a toalha e começou a limpar repetidamente a têmpora.

Depois de conferir seu reflexo no espelho rachado e confirmar que restavam apenas marcas do ferimento, ele relaxou um pouco.

Tirou a camisa e pegou o sabão para remover as manchas de sangue.

Então franziu a testa.

Lembrou-se de outro problema.

O ferimento era grave e havia sangrado bastante.

Isso significava que também deveria haver sangue no quarto.

Em poucos minutos ele limpou a camisa, pegou a toalha molhada e voltou.

Primeiro limpou a marca ensanguentada na mesa.

Depois, usando a luz da lâmpada, examinou o quarto.

Havia várias gotas de sangue no chão e respingos perto da base da mesa.

E, perto da parede esquerda…

…havia uma cápsula de bala de latão.

— ...encostar um revólver na têmpora e puxar o gatilho?

Conectando as pistas assustadoras, Zhou Mingrui finalmente entendeu o que havia acontecido com Klein Moretti.

Mas ele não verificou sua hipótese imediatamente.

Primeiro limpou cuidadosamente todo o sangue.

Depois pegou a cápsula e voltou à mesa.

Abriu o tambor do revólver e retirou as balas.

Hm... apenas cinco cartuchos… e cápsulas de latão.

— Parece que é isso mesmo... — murmurou.

Considerando também a câmara vazia, Zhou Mingrui assentiu lentamente e girou o tambor antes de recolocar as balas.

Seu olhar então se voltou para a esquerda.

Ali estava a frase escrita no caderno:

“Todos morrerão, inclusive eu.”

Dúvidas começaram a surgir em sua mente.

De onde veio esse revólver?

Foi suicídio... ou assassinato disfarçado?

Como um simples recém-formado do Departamento de História se envolveu nisso?

E por que restaram apenas hematomas no corpo?

Será porque eu transmigrei de outro mundo e curei o corpo?

Enquanto refletia, Zhou Mingrui vestiu outra camisa, sentou-se na cadeira e começou a pensar em algo ainda mais importante.

Não era a memória de Klein que o preocupava.

Ele pensava em como havia vindo parar naquele mundo e se era possível voltar.

Seus pais.
Seus parentes.
Seus amigos.

A fascinante internet.

A comida à qual estava acostumado.

Essas eram as razões pelas quais queria retornar à Terra.

Sem perceber, Zhou Mingrui abriu novamente o tambor do revólver e começou a girá-lo distraidamente.

Não aconteceu nada estranho…

Eu apenas tive um pouco de azar.

Então por que fui parar em outro mundo?

Azar…

De repente, seus olhos se arregalaram.

Isso mesmo… antes do jantar eu fiz um ritual para mudar minha sorte!

Um relâmpago pareceu atravessar sua mente, iluminando uma memória que antes estava escondida na névoa.

Como um “especialista de sofá” em política, história, economia, biologia e folclore, ele costumava dizer que sabia um pouco de tudo.

Seus amigos sempre riam e respondiam:

— Um pouco mesmo.

Mas quando se tratava de rituais antigos, ele sabia quase nada.

No ano anterior, durante uma visita à sua cidade natal, Zhou Mingrui encontrou um livro antigo em uma feira:

“Rituais Antigos das Dinastias Qin e Han.”

Parecia interessante.

Ele imaginou que poderia usar o conteúdo para impressionar as pessoas na internet.

Então comprou o livro.

Mas logo perdeu o interesse.

Os textos antigos escritos verticalmente o entediavam.

Ele leu apenas algumas páginas antes de abandoná-lo em um canto.

No mês anterior, porém, Zhou Mingrui vinha tendo uma sequência terrível de azar:

Perdeu o celular.

Clientes desistiram de compras.

Erros no trabalho.

Com tantos problemas, ele se lembrou de que nas primeiras páginas do livro havia um ritual para mudar a sorte e que não exigia anos de treinamento.

O ritual dizia:

Pegue os alimentos mais comuns da sua região, divida-os em quatro partes e coloque cada parte em um canto do ambiente.

Fique no centro do quarto e caminhe em sentido anti-horário formando um quadrado imaginário de quatro passos.

No primeiro passo, medite sobre:
“Bênção do Senhor Imortal Xuanhuang.”

No segundo:
“Bênção do Mestre Celestial Xuanhuang.”

No terceiro:
“Bênção do Imperador Divino Xuanhuang.”

No quarto:
“Bênção do Senhor Celestial Xuanhuang.”

Após o quarto passo, feche os olhos e permaneça parado por cinco minutos.

A cerimônia então será concluída com sucesso.

Pensando que não faria mal tentar, ele desenterrou o livro e realizou o ritual exatamente como descrito.

Nada aconteceu.

Quem poderia imaginar que, à meia-noite, ele acordaria em outro mundo?

— Uma transmigração...

Definitivamente foi o ritual.

Tudo bem.

Amanhã vou repeti-lo.

Se foi realmente ele que causou isso... talvez eu consiga voltar.

Zhou Mingrui parou de brincar com o revólver e sentou-se ereto.

Trate um cavalo morto como se ainda estivesse vivo.


Notas

  1. Xuanhuang — Na tradição chinesa antiga, Xuan significa negro e Huang significa amarelo. A expressão simboliza céu e terra.
  2. Expressão idiomática chinesa que significa fazer tudo o possível mesmo quando as chances parecem mínimas.

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Senhor dos Mistérios Vol. 01 - Capítulo 01



Volume 1 — O Palhaço

Capítulo 01: Carmesim

Tradução: Equipe Club do Tarô 


Dói…

Dói demais…

Minha cabeça… está doendo muito!

O mundo de sonhos brilhante e caótico, cheio de sussurros indistintos, despedaçou-se instantaneamente. que dormia profundamente, sentiu uma dor pulsante e anormal atravessar sua cabeça como se alguém o estivesse golpeando repetidas vezes com um bastão.

Não.

Era mais como se um objeto afiado tivesse perfurado suas têmporas… e então girado.

Ah…

Em meio à confusão, Zhou Mingrui tentou virar o corpo, erguer a cabeça e sentar-se. No entanto, era incapaz de mover os membros, como se tivesse perdido totalmente o controle do próprio corpo.

Pelo jeito… ainda não acordei. Ainda estou sonhando…

Quem sabe a próxima cena seja eu achando que acordei… quando, na verdade, ainda estou dormindo…

Zhou Mingrui já havia passado por situações parecidas antes, então tentou reunir toda a sua concentração para escapar da escuridão e da confusão que o aprisionavam.

Mas, naquele estado de semiconsciência, qualquer força de vontade que conseguisse reunir era tão efêmera quanto uma névoa passageira.

Seus pensamentos estavam difíceis de controlar.
Não importava o quanto tentasse se concentrar, ideias aleatórias continuavam surgindo em sua mente.

Por que de repente estou com uma dor de cabeça tão insuportável no meio da noite?

E dói de verdade!

Será que é… uma hemorragia cerebral?

Droga… não me diga que vou morrer jovem!

Preciso acordar! Agora!

Hã? Por que não parece doer tanto quanto antes?

Mas… por que ainda sinto como se uma faca cega estivesse raspando meu cérebro…?

Pelo visto, dormir de novo é impossível.

Como vou trabalhar amanhã?

Espera… por que estou pensando em trabalho numa hora dessas?

Isso é claramente uma dor de cabeça séria. Claro que tenho que tirar folga!

Não preciso me preocupar com as reclamações do meu chefe!

Pensando bem… talvez não seja tão ruim.

Heh… talvez eu até consiga um tempo livre.

A dor pulsante invadiu novamente sua consciência.

Pouco a pouco, Zhou Mingrui reuniu forças até conseguir mover as costas e abrir os olhos.

Finalmente, ele se libertou daquele estado de sonho.

Sua visão estava turva no início.

Gradualmente, tudo foi sendo tingido por um leve tom vermelho carmesim.

Diante dele havia uma mesa de estudo de madeira sólida.

No centro, um caderno aberto com páginas grossas e amareladas.

No topo da página estava escrito um título com letras negras profundas e estranhas.

À esquerda do caderno havia uma pilha de livros cuidadosamente organizada cerca de oito volumes.

Na parede à direita havia tubulações cinza-esbranquiçadas, conectadas a uma lâmpada de parede.

A luminária tinha um estilo clássico ocidental.
Era aproximadamente metade do tamanho da cabeça de um adulto, com um vidro interno transparente protegido por uma grade metálica preta.

Logo abaixo dela havia um frasco de tinta preta, envolto por um fraco brilho vermelho.

Na superfície do frasco havia um relevo que lembrava vagamente a figura de um anjo.

À frente do frasco e à direita do caderno estava uma caneta-tinteiro escura, perfeitamente cilíndrica.

Sua ponta brilhava levemente.

A tampa repousava ao lado de um revólver de latão.

Uma arma…? Um revólver?

Zhou Mingrui ficou completamente surpreso.

Nada daquilo lhe era familiar.

Aquilo definitivamente não era o seu quarto.

Enquanto tentava compreender a situação, percebeu que a mesa, o caderno, o frasco de tinta e o revólver estavam cobertos por um “véu carmesim” resultado da luz que entrava pela janela.

Instintivamente, levantou o olhar.

Lentamente.

No céu…

Uma lua carmesim pairava silenciosamente sobre um pano de fundo de veludo negro.

Isso…

Um horror indescritível tomou conta de Zhou Mingrui.

Ele tentou se levantar abruptamente.

Mas antes que conseguisse se erguer completamente, seu cérebro latejou violentamente.

A dor o fez perder as forças.

Ele caiu de volta na cadeira de madeira.

PA!

Mesmo com o impacto, a dor na cabeça continuava sendo pior.

Zhou Mingrui apoiou-se na cadeira e levantou novamente.

Então começou a observar o ambiente com atenção.

O quarto não era muito grande.

Havia duas portas marrons, uma de cada lado.

Contra a parede oposta havia uma cama de madeira baixa.

Entre a cama e a porta esquerda havia um armário com duas portas abertas e cinco gavetas na parte inferior.

Ao lado do armário, a mesma tubulação cinzenta se conectava a um estranho dispositivo mecânico, cheio de engrenagens expostas.

No canto direito havia algo parecido com fogões a carvão, além de panelas e utensílios de cozinha.

Diante da porta direita havia um espelho rachado, com base de madeira simples.

Quando seu olhar passou pelo espelho…

Zhou Mingrui viu a si mesmo.

Cabelo preto.

Olhos castanhos.

Uma camisa de linho.

Corpo magro.

Traços comuns… mas com um ar intelectual.

Isso…

Diversas suposições surgiram em sua mente.

O revólver antigo.

A lua carmesim diferente da lua da Terra.

Só podia significar uma coisa.

E-eu… transmigrei?

Zhou Mingrui ficou boquiaberto.

Ele havia crescido lendo web novels e imaginando esse tipo de situação.

Mas quando realmente aconteceu…

Foi difícil aceitar.

Talvez seja esse o preço de gostar demais de fantasias.

Depois de um minuto, Zhou Mingrui já estava se xingando mentalmente enquanto tentava aceitar a realidade.

Se não fosse pela dor de cabeça persistente que mantinha seus pensamentos estranhamente claros…

Ele teria acreditado que estava sonhando.

Calma… calma… calma…

Respirando fundo várias vezes, ele tentou se acalmar.

Foi então que memórias começaram a surgir em sua mente.



Cidadão Natural da Cidade de Tingen, no Condado de Awwa, no Continente Norte.

Recém-formado no Departamento de História da .

Seu pai havia sido sargento do Exército Real e morreu durante um conflito colonial no Continente Sul.

A pensão recebida pela família permitiu que Klein estudasse em uma escola de idiomas e posteriormente ingressasse na universidade.

Sua mãe era devota da noite eterna.

Ela morreu no ano em que Klein foi aprovado na universidade.

Ele também tinha um irmão mais velho e uma irmã mais nova.

A família vivia em um pequeno apartamento de dois quartos.

A situação financeira era precária.

No momento, a família dependia apenas do irmão mais velho, que trabalhava em uma empresa de importação e exportação.

Como formado em história, Klein dominava o antigo idioma Feysac, considerado a origem de todas as línguas do Continente Norte.

Além disso…

Ele conhecia o idioma Hermes, frequentemente encontrado em antigos mausoléus e textos de rituais.

Idioma Hermes…?

Zhou Mingrui franziu a testa e olhou novamente para o caderno aberto sobre a mesa.

As letras estranhas começaram a parecer familiares.

Estranhas.

Alienígenas.

Depois…

Legíveis.

Era Hermes.

No papel estava escrito:

“Todos morrerão. Inclusive eu.”

Um arrepio percorreu o corpo de Zhou Mingrui.

Instintivamente, ele recuou.

Quase caiu, mas conseguiu se apoiar na mesa.

Por um momento, teve a impressão de que o ar ao redor vibrava com sussurros distantes.

Como histórias de terror contadas na infância.

Ele sacudiu a cabeça.

Deve ser imaginação…

Foi então que seu olhar caiu novamente sobre o revólver de latão.

Uma dúvida surgiu imediatamente.

Com a condição financeira da família de Klein…

Como eles poderiam comprar uma arma dessas?

De repente, ele percebeu algo.

Ao lado da mesa havia uma marca de mão vermelha.

Mais escura que a luz da lua.

Mais espessa que o véu carmesim.

Era…

uma marca de mão ensanguentada.

— Uma… marca de mão?

Instintivamente, Zhou Mingrui olhou para a própria mão.

Sua palma e dedos estavam cobertos de sangue.

Ao mesmo tempo, a dor em sua cabeça continuava latejando.

Será que… abri a cabeça?

Ele caminhou até o espelho rachado.

Quando se aproximou…

Usando a luz da lua carmesim como iluminação…

Ele inclinou a cabeça e examinou a própria têmpora.

No espelho apareceu uma visão horrível.

Uma ferida grotesca.

A pele ao redor parecia queimada.

Sangue cobria a região.

E dentro da abertura…

Uma massa acinzentada e branca pulsava lentamente.

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Sobrevivência na defesa da torre - Capítulo 01

Capítulo 1 — Bem-vindo ao Tower Defense Survival!

Tradução: Mestre da Guilda 
Revisão: D'Agata 

 

“O Tower Defense Survival, que acontece uma vez a cada vinte anos, está prestes a começar!”

“O número de países participantes é 237  o equivalente a 98% das nações do mundo!”

“O Tower Defense Survival será transmitido ao vivo nos céus de diversas cidades e também em múltiplas plataformas de mídia!”

“Faltam dez minutos para o início deste jogo que decidirá o destino das nações. Fiquem atentos!”


——————

Em um quarto alugado de tamanho modesto.

Pierce abriu os olhos, atordoado.

A transmissão contínua na televisão não deixava dúvidas: ele havia transmigrado.

Agora estava em um país chamado País M.

O jogo Tower Defense Survival exibido na TV era uma guerra que, a cada vinte anos, redefinia o destino das nações!

Cem participantes eram selecionados aleatoriamente em cada país para lutar pela sobrevivência dentro do jogo.

Todos os recursos obtidos pelos jogadores seriam materializados em seus respectivos países multiplicados por cem vezes.

Por outro lado, se a defesa falhasse e um monstro invadisse a cidade, dez mil criaturas idênticas surgiriam na nação correspondente.

Assim, a cada vinte anos, neste Planeta Azul, a ordem mundial sofria uma reviravolta colossal.

Tomemos como exemplo o atual País M de Pierce. Outrora uma grande potência, havia passado por inúmeras transformações.

Na última edição do Tower Defense Survival, o País M quase perdeu tudo. Agora, caminhava lentamente rumo à decadência.

Se fracassassem novamente, o que os aguardava seria a destruição da própria civilização.

Enquanto assimilava as memórias do antigo dono daquele corpo, Pierce sentiu uma ardência no dorso da mão.

Ao olhar, viu um símbolo em forma de “M”  o emblema de seu país.

— Não pode ser...

— Eu acabei de transmigrar e já fui escolhido para o Tower Defense Survival?

Pierce ficou imóvel.

Naquele instante, uma voz mecânica ecoou em sua mente:

[O Jogo Global de Tower Defense está prestes a começar!]

[Parabéns ao País M: o participante Pierce foi selecionado para o Tower Defense Survival!]

[O jogo começou oficialmente. Lembre-se de sua missão: sobreviver!]

— Isso é absurdo!

Antes que pudesse terminar a frase, uma luz branca envolveu seu corpo e ele desapareceu do quarto.

Quando abriu os olhos novamente, Pierce estava dentro de uma pequena casa de pedra.

Logo em seguida, uma tela branca surgiu diante dele.

[Jogador: Pierce]
[Representando: País M]
[Nível de Defesa: Nenhum]
[Missão: Sobreviver no Tower Defense!]

Um painel de jogo?

Como gamer veterano, Pierce reconheceu aquilo instantaneamente.

Pelo visto, ele representava o País M como jogador naquele Tower Defense.

Mal havia transmigrado e já fora jogado em um jogo mortal. Não poderiam facilitar um pouco?

Mas se era um Tower Defense… onde estava a torre?

Ele deveria proteger aquela pequena casa de pedra?

Controlando a respiração, Pierce se levantou e caminhou até a porta para verificar a situação.

Foi então que—

[Ao abrir esta porta, o Tower Defense começará oficialmente.]

Uma fileira de palavras douradas flutuava diante de seus olhos.

Era completamente diferente do painel do jogador.

Ele piscou e voltou a olhar para a porta.

As palavras douradas reapareceram.

— Isso… é uma dica?

Seria algum tipo de mecanismo especial do Tower Defense Survival?

Sem hesitar mais, Pierce abriu a porta.

No centro do pequeno pátio à frente, havia um cristal que irradiava uma luz azul-escura.

A névoa ao redor impedia que ele visse o que existia além dali.

[O cristal diante de você pode teleportá-lo para a cidade que está sob sua proteção. É a única forma de deixar este local.]

Pierce voltou o olhar para a névoa.

[Há algo na névoa que representa uma grande ameaça à vida. Recomenda-se não tocá-la.]

Isso não era praticamente trapaça?

Seguindo as instruções, ele se aproximou do cristal e pousou a mão sobre ele.

A luz tênue começou a se espalhar por seu braço, até envolver completamente seu corpo.

 

[Parabéns ao jogador Pierce, do País M. O Tower Defense Survival foi oficialmente ativado!]

[Nesta edição, mais de duzentos países participam. Cem jogadores de cada nação foram selecionados como representantes.]

[A sobrevivência dos participantes será transmitida ao vivo para o público mundial.]

[Os jogadores devem defender suas cidades contra invasões de outras cidades e criaturas desconhecidas. Caso uma cidade seja destruída, o país correspondente sofrerá danos dez mil vezes maiores!]

[Se a defesa falhar, cada criatura liberada na cidade aparecerá no país representado, multiplicada dez mil vezes!]

[A morte de um jogador reduzirá em um ano a expectativa de vida de todas as formas de vida em seu país.]

[O Tower Defense Survival, vindo de outra dimensão, começou oficialmente!!]

[Todos os participantes, preparem-se!]


Naquele momento, Pierce recebeu uma nova notificação:

[Detectado desequilíbrio no número de participantes do País M. Compensação em andamento…]

Desequilíbrio no número?

Antes que pudesse reagir, todo o Planeta Azul entrou em alvoroço.

No instante em que Pierce ativou o cristal, todos os grandes sites de mídia foram tomados por aquelas mensagens. Uma transmissão ao vivo impossível de remover apareceu simultaneamente.

Após a divulgação das regras, houve um breve silêncio.

Então, o caos explodiu.

Incontáveis publicações sobre o jogo dominaram a internet.

O Tower Defense Survival, realizado uma vez a cada vinte anos, havia começado oficialmente!

Em todas as cidades, uma gigantesca tela luminosa surgiu nos céus.

As regras familiares.
A interface familiar.
A transmissão ao vivo familiar.

Mas as emoções eram um turbilhão: medo, excitação, surpresa…

Alguns temiam que monstros invadissem seus países.

Outros celebravam a chance de uma pequena nação finalmente mudar seu destino.

A estrutura do mundo estava prestes a mudar novamente.

E tudo isso dependia dos participantes do Tower Defense Survival.

Cada movimento deles representava a segurança ou a ruína de seus países.

Enquanto o mundo fervilhava, os departamentos governamentais de diversas nações iniciavam reuniões estratégicas para lidar com aquele jogo capaz de determinar ascensão ou queda.

E então—

No céu azul, uma imagem surgiu na gigantesca tela global.

Era uma transmissão ao vivo colossal.

A imagem em ultra definição mostrava o rosto de cada participante.

Mais de vinte mil jogadores apareciam na tela, com as bandeiras de seus respectivos países exibidas abaixo.

O mundo inteiro entrou em polvorosa.


quarta-feira, 4 de março de 2026

Senhor dos Mistérios (Novel)

Lançamento:2018

Título original:Lord of Mysteries
LOTM
诡秘之主 

Autor:  Cuttlefish That Loves Diving, 爱潜水的乌贼

País: china 

1432 capítulos (total concluído)
8 volumes / 1394 capítulos (principal)
36 capítulos (história paralela)
2 capítulos (história bônus)

Status: Em processo 

Gênero: Drama, Terror, Adulto, Mistério , Psicológico, Seinen , Sobrenatural , Xuanhuan


Sinopse: Com o avanço da energia a vapor e das máquinas, quem poderá se aproximar de ser um Beyonder? Envolto na névoa da história e da escuridão, quem ou o que é o mal à espreita que sussurra em nossos ouvidos?

Ao acordar e se deparar com uma série de mistérios, Zhou Mingrui se vê reencarnado como Klein Moretti em um mundo alternativo da era vitoriana. Ele descobre um reino repleto de máquinas, canhões, encouraçados, dirigíveis, motores diferenciais, além de poções, adivinhação, feitiços, cartas de tarô e artefatos selados.

A Luz continua a brilhar, mas o mistério nunca se dissipou. Acompanhe Klein enquanto ele se envolve com as Igrejas do mundo  ortodoxas e não ortodoxas e, ao mesmo tempo, desenvolve novos poderes graças às poções Beyonder. Assim como a carta de tarô correspondente, O Louco, numerada como 0 um número de potencial ilimitado, esta é a lenda de "O Louco"..

Tradução: Equipe Club do Tarô 



Volume 01 : O Tolo Parte 01








Trinity Seven Vol. 01 - Capítulo 03

Capítulo 03 — A Donzela da Ruína e a Lança da Criação

Eu não tinha nada.

Minha primeira lembrança é a escuridão. Apenas escuridão nada além disso. E, junto dela, a consciência: eu existo.

O que faço aqui? Onde estou?

Não sei.

Mas uma coisa é certa: eu sou.

Foi então que a treva se dissipou.

Diante dos meus olhos estenderam-se um céu azul infinito e um campo verdejante.

Como? De onde? O que aconteceu?

E, afinal… quem sou eu?

Dei um passo à frente.

A relva roçou suavemente meus pés descalços, a brisa acariciou minhas faces, e meu olfato foi inundado por uma profusão de aromas desconhecidos.

A impressão foi tão profunda que me fez prender o fôlego e, sem saber por quê, comecei a chorar.

◆◆◆◆◆

— É isso que tenho sonhado ultimamente: minhas primeiras memórias. Depois de vagar um pouco por aquele lugar desconhecido, encontrei o diretor contei.

Todos se surpreenderam inclusive meu marido. Ele soltou um prolongado “Oh…”, visivelmente surpreso, mas não demonstrou inquietação nem tentou me consolar.

Dizem que ele é minha “alma gêmea”, mas ainda não compreendo plenamente o que isso significa.

E, no entanto…

— O que foi, Arin? — perguntou ele, preocupado.

— Nada… só estava olhando para você — respondi com serenidade, embora meu coração batesse mais rápido e o rubor subisse às faces.

Sem dúvida, esses são os chamados “sintomas de uma noiva apaixonada”.

— É provável que você também venha de outro mundo, Arin-san, assim como eu observou, pensativa, Lilith-sensei, acariciando o queixo.

Ela própria nascera em outra dimensão, destruída por seu pai, o Senhor das Trevas, que a enviara para o nosso mundo.

Lilith-sensei talvez esteja certa. Aquela vastidão vazia poderia muito bem ter sido um mundo morto.

— O diretor simplesmente apareceu diante de mim e disse que tinha vindo me receber.

— Ele sempre foi excêntrico… mas coincidências assim chegam a ser inquietantes — comentou Lilith-sensei.

Todos assentiram.

Eu devia ter uns oito anos na época. Sim, é difícil negar: era exagerado sob muitos aspectos.

— Aliás, nesses últimos anos o diretor não mudou nada.

— Ele nunca muda. Deve ser magia da imortalidade. Todo arquimago a domina comentou Levi.

Então um mago sem juventude eterna é considerado incompleto? Sinto que já ouvi algo assim antes.

— A diretora Libera parece uma garota embrou meu marido.

Ao que parece, as magas recorrem com frequência a técnicas de rejuvenescimento. Ainda assim, estou longe de alcançar tal nível.

— Então foi o diretor quem a levou para a academia? — retomou Selina, inclinando-se para mim com o bloco de notas em mãos, ansiosa pela continuação.

A curiosidade é qualidade indispensável a qualquer mago digno, e nesse aspecto Selina supera, de longe, nós da Trindade. Deveríamos aprender com ela.

— Sim. E, no caminho, fomos atacados por demônios misteriosos.

— Demônios misteriosos?

— Ah! Já ouvi falar disso! — exclamou Yui, batendo palmas. — Dizem que, além dos limites da academia, às vezes surgem demônios estranhos, impossíveis de analisar com feitiços.

— Eles aparecem sempre que eu saio da academia — acrescentei.

— O quê?! — Yui arregalou os olhos.

Talvez fosse melhor explicar.

— Sempre que deixo o território da academia, surgem demônios que ninguém jamais viu. Alguns conseguimos derrotar. De outros, tivemos de fugir.

— “Tivemos”? Quer dizer que até o diretor…? — perguntou Selina, empalidecendo.

— Sim. Ele dizia: “Não vale a pena. Vamos recuar.”

— O diretor… um mago classe Paladino… recuou!

Levi ouvira tudo em silêncio. De tempos em tempos, levantava o olhar discretamente embora, no meu caso, eu tivesse percebido de imediato, apenas optando por não comentar.

Então ela declarou:

— São os Outros.

Sempre me impressionou o quanto Levi sabe. Enquanto todos ainda digerem a informação, para ela tudo já é evidente.

Talvez seja por ter vivido no lado sombrio do mundo. Ou talvez simplesmente aprenda com rapidez excepcional.

— Sim, Levi. Você tem razão. O que esperar menos de uma ninja?

— Há muitas coisas que um ninja sabe — respondeu ela, orgulhosa.

Eu própria só recentemente soube da existência dos Outros.

Se algum dia Levi se tornasse inimiga do meu marido… Não. Prefiro nem imaginar.

— Quem são esses “Outros”? Seus admiradores, Arin? — perguntou ele.

— Pode-se dizer que sim. Mas não precisa se preocupar. Eles já não aparecem perto de mim.

— Entendo… que bom — respondeu, aliviado.

Meu peito tornou a se aquecer.

— Mas por quê? — quis saber Lilith-sensei.

Mostrei-lhe o anel no qual estava selado meu grimório, Ragna Yggdrasil.

— Porque eu fui até lá para obter a lança.

— Até onde…?

— À Biblioteca da Árvore do Mundo uma dimensão contida dentro de Ragna Yggdrasil, que me acompanha desde que despertei neste mundo.

E então lhes contei como, sufocando meu próprio orgulho, conquistei aquela lança.

◆◆◆◆◆

Enquanto meu marido, temporariamente integrado ao grupo de inspetores, cumpria uma missão na Academia Real de Liber, eu permanecia em meu quarto, estudando o grimório do amanhecer até altas horas da noite.

Ele se fortalecia a passos largos, avançando inexoravelmente rumo ao destino de Senhor das Trevas. Mais cedo ou mais tarde, a escuridão o consumiria por dentro.

Desesperei-me buscando uma forma de salvá-lo e cheguei a uma conclusão: precisava retornar à origem. À pergunta primordial quem sou eu?

Ragna Yggdrasil ainda guardava inúmeros mistérios. Muitos magos arriscam a própria vida para decifrar as inscrições de um grimório.

Despertar a magia, estudá-la, definir seu tema e obter um grimório esses são os degraus que conduzem um estudante ao título de mago. Só então ele pode liberar o poder do livro e entrar no modo magus.

Selina não possui grimório; tecnicamente, ainda é aprendiz. Eu, ao contrário assim como meu marido o possuía desde o primeiro instante de autoconsciência neste mundo. Saltei etapas e mergulhei direto na pesquisa.

Decidi, portanto, regressar ao ponto de partida.

Para isso, era necessário duvidar do próprio grimório rejeitar a magia nele contida.

Em termos simples, magia é o caminho da negação.

Desafiamos a moral, buscamos aquilo que nos falta.

No meu caso, a ira.

Raramente experimento emoções intensas. Ira… é algo que desconheço. Ela não existe em mim.

Esse foi o ponto de partida de minha investigação.

Após incontáveis tentativas e erros, compreendi a natureza da ira. E percebi que não desejo destruir.

Não há em mim a fúria primordial que, cegando a razão, reduz tudo a escombros.

É necessário? Para quê? Com que propósito?

Responder a isso é tão difícil quanto encontrar o sentido da vida.

Ainda assim, escolhi o tema da “Ruína”.

E, ao estudá-lo, tornei-me uma das integrantes da Trindade.

— Desta vez, farei diferente.

Concentrei-me no anel que selava Ragna Yggdrasil.

Normalmente, ao infundir magia, ele se transforma em livro.

Mas agora…

— Conectando ao Arquivo “Ira”. Manifestando o tema.

Sem entrar no modo magus, preenchi o anel com Ruína.

Ele brilhou em azul pálido.

Uma dor lancinante percorreu meu corpo.

Mago e grimório são um só, corpo e alma.

A Ruína começou a corroer-me por dentro.

Então a tormenta se abateu sobre mim agulhas incandescentes nas veias, lâminas rasgando órgãos, um martelo esmagando meu crânio.

A própria ideia de Ruína rugia dentro de mim.

Não suportei.

E perdi a consciência.

“Talvez eu não seja tão forte assim…” foi meu último pensamento.

Quando despertei, encontrava-me no interior de uma árvore colossal vasta o bastante para conter nossa academia inteira, e mais.

Prateleiras talhadas nas paredes sustentavam incontáveis livros.

— Onde estou?

— Bem-vinda à Biblioteca da Árvore do Mundo, maga soou uma voz feminina.

Virei-me.

Diante de mim estava uma cavaleira de armadura verde, leve e perfeitamente ajustada ao corpo.

— A Biblioteca da Árvore do Mundo… o santuário onde se guardam todos os conhecimentos das runas. Dizem que desapareceu no Ragnarök.

— Correto. Aprende rápido. Não esperava menos de quem ousou chegar aqui. Você utilizou magia autodestrutiva para buscar a verdade. Admirável. O que a trouxe?

— Preciso de poder. A qualquer custo.

Ela empunhava uma lança incomum, de ponta espiralada Gáe Bolg, arma rúnica suprema.

— Você é Scáthach, fundadora das Runas do Caos?

— Infelizmente, não. Sou apenas um fragmento de sua vontade, preso a esta dimensão.

Ela soava relaxada mas sua presença era mais ameaçadora que a de um demônio supremo.

— Se deseja poder, demonstre resolução.

Ergui a mão.

— Conectando ao Arquivo “Ira”.

— Não será tão simples.

O anel tornou-se livro; a lança envolveu-se em luz azulada.

— Manifestar o tema! — ecoaram duas vozes.

Círculos rúnicos cintilaram sob nossos pés.

Comecei com o que melhor dominava:

— Tiwaz!

A runa da vitória estabilizou minha energia.

Mas vitória a qualquer custo… não condiz comigo.

Ela traçou a mesma runa.

Anulariam-se.

— Kenaz!

Chamas a envolveram — apenas para serem dissipadas por chamas idênticas.

Ela copiava cada movimento.

Então recorri ao meu trunfo recente:

— Uruz!

Energia pura irrompeu de mim. Por instantes, meu poder elevou-se ao nível de Yui, a Cardeal. Mas, se não anulasse a runa a tempo, eu me tornaria um demônio.

— Ousado — comentou a cavaleira.

Não parei.

— Fehu!
— Eihwaz!

Uma flecha de luz formou-se na esquerda; um arco, na direita.

Trindade da magia três forças multiplicadas por trinta e três.

Mas ela replicou cada símbolo.

Vacilei por um segundo.

— Está terminado. Retorne ao seu mundo. Othala.

A runa brilhou acima de mim.

No seu núcleo, vi apenas treva e vazio.

Eu não retornaria à academia. Voltaria ao nada.

— Othala!

Cancelei Uruz, Fehu e Eihwaz, traçando a runa de retorno inútil contra quem nascera ali.

Não podia vencer.

Restava-me a escuridão.

— Meu marido…

Desenhei Othala mais uma vez mas voltada para mim, preenchendo-a com a imagem dele.

Por que meu lar deveria ser o vazio?

Meu verdadeiro lugar é ao lado dele.

Lá é meu mundo.

E as lágrimas finalmente caíram.

Senti um desejo ardente de vê-lo de tomar sua mão, de abraçá-lo.
E não apenas a ele, mas a todas as integrantes da Trindade, a Selina, aos grimórios…
Queria estar cercada de sorrisos.

Era isso o verdadeiro milagre.
Um milagre insubstituível.
Algo que eu jamais desejaria destruir.

— Eu quero… ficar com ele… e com todos os outros… — sussurrei, com a voz rouca e trêmula.

Então, diante dos meus olhos, uma runa irrompeu em luz embora eu não a tivesse traçado nem invocado qualquer círculo mágico.

Era…

— Ansuz?

Ansuz brilhou com intensidade crescente, e sobre ele sobrepôs-se outra runa, semelhante a Algiz.

Compreendi instintivamente o significado daquela combinação…
Amizade. Amicitia.

— Oh… então você conseguiu criar runas da alma, mesmo com um pé já mergulhado nas trevas — admirou-se o fragmento de Scáthach.

De fato, eu ainda não havia estudado Ansuz nem Algiz. Ainda assim, elas surgiram, fundiram-se a Othala e resplandeceram com novo fulgor.

— Sua alma não é humana… e, ainda assim, você desejou como um ser humano. Desejou em voz alta. Por isso, Odin aquele que nos concedeu as runas atenderá ao seu pedido.

Othala transformou-se em outro símbolo.

— Esta é a última runa. Ela não nasceu no mundo destinado a perecer nas chamas do Ragnarök. “Partum”. Seu novo tema.

— “Partum”… — repeti.

Sob meus pés, um círculo mágico diferente se acendeu estranho, desconhecido.

Sua luz fluiu para dentro de mim, trazendo uma energia nova: cálida, reconfortante.

Por um instante, tive a nítida sensação de que meu marido se aproximava e me envolvia nos braços.

— Você quebrou a si mesma e encontrou seu tema. Superou a provação. Tome. Esta é a arma de “Partum”: a lança mágica Gáe Bolg. Ela será a pedra angular de seu poder e a ligará à pátria que você mesma escolher. A partir de agora, ela é sua.

Scáthach resplandeceu e fundiu-se à Gáe Bolg, impregnando-a com a magia de Partum.

— Obrigada… fragmento. Eu quero estar com meu marido e meus amigos declarei com firmeza, segurando o cabo da lança.

A biblioteca foi então banhada por uma luz como a do sol.

A última lágrima deslizou por minha face.

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— E foi assim que obtive a Gáe Bolg, meu marido.

— Arin… você foi sozinha a um lugar tão perigoso…

Ele não parecia surpreso estava preocupado. Isso me deixou feliz.

— Pois bem, meu marido. Preciso estudar meu novo tema. E, para isso, teremos de ter um filho. — Aproximei-me e o abracei.

— E-espera… então esse é o seu tema?!

— Gerar vida também é uma forma de criação.

— Eu não permito!

Como sempre, Lilith-sensei vermelha até as pontas das orelhas interpôs-se entre nós. Seu constrangimento é adorável.

— Como tudo se complica…

— Oh, Arin… você aprendeu a sorrir? Que maravilhoso! — exclamou meu marido, rindo.

O sorriso do homem que amo. Os sorrisos das minhas queridas amigas… Já não pertenço àquela escuridão. Meu lar é aqui.

E, naquele instante, compreendi:
eu era feliz.

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